Na comparação, eu perco-me

Recentemente tenho estado mais calada.

Mais recolhida. Mais em casa. Mais em mim.

E, curiosamente, é quando estou mais neste lugar que mais facilmente me confronto com um tipo de ruído diferente — não o do mundo à minha volta, mas o das histórias que chegam até mim.

Os áudios de uma amiga, cheios de vida social, de jantares, de encontros, de concertos, de praia, de movimento.

E eu ouço. Às vezes páro o audio para ficar a respirar no silêncio.

E sorrio. Ou não. 

E algo subtil acontece por dentro.

Uma comparação silenciosa começa a ganhar espaço.

Como se a vida dela estivesse cheia de momentos altos e a minha estivesse… mais quieta. Mais pequena. Menos interessante. Vazia.

Mesmo sabendo, racionalmente, que isto não é verdade.

A minha vida também está cheia. Só não está cheia de barulho.

Está cheia de livros. De descanso. De casa arrumada. De silêncio. De pausas. De cansaço. De necessidade de recolhimento.

Mas há momentos em que isso não parece suficiente.

Há momentos em que o mundo parece medir a vida pelo número de coisas que acontecem fora.

E eu esqueço-me, por instantes, de que também há vida no que não se vê.

No que não se publica. No que não se conta em áudio, porque nada há a contar depois de um desfiar de agenda cheia de compromissos sociais, saídas, encontros, jantares, copos.

Na comparação saímos a perder. Porque quando nos comparamos, colocamo-nos sempre no lugar do menos.  

Eu, na comparação, perco o lugar onde estava, vou para mais longe de mim e, posso, esquecer-me de mim própria. 

 

Comentários

  1. Sabes que somos muito parecidas nisso.
    Mais e mais tenho trabalhado em não o fazer sequer.
    Pensar no meu mundo, mesmo que não veja colorido.
    O m-R, a casa, os gatos, os livros, o vinho do fim de semana :)

    Vive-se tanto sem uma câmara/telemóvel por perto!

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    1. Neste momento nem falo em redes sociais porque já fiz esse distanciamento e o meu consumo tem muitos filtros. Neste momento é lidar com aquela comparação que surge com as pessoas que estão à volta. A amiga que partilha as coisas fantásticas que fez no fim de semana. As leitoras desta vida que despacham 50 livros num mês. As colegas de mentoria que já fizeram não sei quantas vezes os exercícios ou desafios.
      Ao sair da comparação, regresso a mim, consciente do meu ritmo. Que não sou menos nem mais porque não faço as mesmas coisas ou a mesma quantidade. Que não sou nem melhor nem pior por seguir as minhas coordenadas e não as dos outros. E como me tenho sentido um pouco diferente, tenho andado mais recolhida e menos social. Mais introspetiva. E isso não é bom nem mau. É apenas o que estou a precisar para mim, neste momento.

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