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Passeio (quase) higiénico!

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Quando dei por terminado o meu dia de trabalho ontem, fiquei ali um momento indecisa: ir ou não à rua. Por um lado sentia o meu corpo a querer descanso na horizontal, por outro algo dentro de mim pedia sol e ar fresco na cara.  Calças de fato de treino, sweat, corta-vento. Equipei-me a preceito e saí. Cruzei-me com muitas pessoas a fazerem a sua caminhada, ou corrida, ao final da tarde. Calções, t-shirts. E eu ali, toda agasalhada, a parecer um peixe de boca aberta. Ofegante, sem sequer estar a fazer esforço físico. Soube-me bem o ar fresco da praia. O sol de fim de tarde na pele do rosto, na verdade a única pele exposta. Cheguei a casa cansada no corpo, e com algo mais leve na alma. Pelo caminho fui tirando fotos. Apreciando a vista. E agradecendo este privilégio de ter o mar ao fundo da rua, como quem vai ao quintal apanhar ar... e alfaces para o jantar. A gripe continua comigo, intensa e persistente. Eu continuo em teletrabalho, com formação online da parte da tarde. Sinto o cor...

A mesma porta, outra chave

Na época do COVID, quando todos estávamos em casa e o teletrabalho se tornou recurso para muitos profissionais, confesso que não gostei. Não gostei de estar trancada, de não haver uma fronteira física e definida entre o espaço de trabalho e o espaço doméstico e pessoal. Eu sei que o contexto era assustador: uma pandemia, muitas restrições, muita ansiedade e medo à mistura. Na altura, fiquei três meses em teletrabalho, desde a primeira ordem de confinamento. Fui das primeiras a regressar ao local de trabalho e circulava com uma declaração da entidade patronal no carro, para apresentar às autoridades, caso fosse questionada. Hoje estou em teletrabalho. Contexto totalmente diferente. Por estar com gripe, sugeri à chefia ficar em casa em regime remoto — antes isso do que faltar e deixar acumular. Posso não estar a 100% — nem em produtividade, nem em condições físicas —, ainda assim estou melhor do que se estivesse lá. Fato de treino, conforto térmico, sossego, chá de limão quente, medicaçã...

Quando o corpo impõe silêncio

Depois de uma semana emocionalmente intensa, marcada pela libertação de sombras que carregava — e de uma raiva que se soltou ao ver um "tribunal da moral" presidido por quem mais falha —, o meu corpo decidiu cobrar a fatura. É uma das experiências mais frustrantes da convivência humana: esse ruído que desafia a minha paz e mexe com as feridas da injustiça. E quando o barulho interno demora a acalmar, o corpo trata de impor o silêncio à sua maneira. Ontem, sem aviso, sem sinais, aconteceu o shut down . Uma gripe com direito a dores de corpo, mal-estar generalizado e um entupimento completo das vias respiratórias derrubou-me. Atirada para o sofá, apaguei. Hoje ainda estou convalescente. Um pouco melhor que ontem, mas ainda fragilizada. Optei pelo meio-termo: trabalhar em casa, no sossego e no conforto, com a caneca de chá a fumegar ao meu lado e sucessivos reforços de líquidos quentes — porque deixar acumular é uma forma de adoecer duas vezes. O corpo é muito sábio. Desde q...

Pôr do sol sem dia marcado

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Ontem aproveitei a chamada golden hour na minha esplanada preferida, perto de casa. Privilégios de morar na praia, tendo o mar como "quintal". E nesse momento, ao apreciar a vista, sentir a brisa no rosto, enquanto bebia uma cidra e petiscava uma empalhada (malta do Norte saberá), percebi que este simples programa de fim de tarde é muitas vezes relegado para uma sexta-feira, em modo arranque de fim-de-semana. São demasiadas as coisas que deixamos para o fim-de-semana, como se os prazeres só tivessem tempo e espaço para acontecer nesses dois dias. Ou momentos que adiamos para as férias. Ou projetos, ideias, sonhos que empurramos para quando nos reformarmos e tivermos mais tempo livre.  O meu pai tinha muitas ideias para a reforma. O meu sogro também. Nenhum dos dois chegou a vê-la. Os sonhos dissiparam-se nesse futuro, destino ao qual não chegaram.  Viver com prazer tornou-se um objetivo recente, presente e consciente nos meus dias. Chegar aqui demorou anos. Muitos anos. Era ...

Despir a capa da Salvadora

Durante uma grande parte da minha vida acreditei que estar sempre disponível para os outros era uma forma de ter pessoas na minha vida. Uma forma de gostarem de mim.  E doía quando era eu que precisava de uma mão estendida, de um ombro amigo, de um ouvido disponível - e percebia o quão sozinha eu estava. Fui percebendo que eu era a amiga dos desabafos. Largavam o lixo emocional em mim, saíam mais leves e soltos, e eu ficava sozinha... com toda a carga que tinham despejado. Quando iniciei um processo de terapia e desenvolvimento pessoal comecei a entender o padrão. O meu padrão. As minhas carências, as minhas feridas emocionais. O complexo da "salvadora" que tira todos do fundo do poço e depois fica lá, sozinha. O medo de estar sozinha transformou-se, na verdade, na força que hoje encontro na minha solitude.  Despi a capa da salvadora e ganhei leveza. E espaço para mim própria.  Não foi egoísmo. Foi um imenso ato de amor próprio. Primeiro estranhei, claro. E depois de algu...

Enquanto houver vida, há caminho

Sabia lá eu que depois de escrever o meu último texto, a ressignificar o cansaço de tanta chuva, estaria por vir uma sucessão de tempestades que deixaram parte do país num estado de catástrofe.  Que diriam as minhas avós perante tamanha tragédia? Provavelmente entregariam nas mãos dos desígnios divinos, e como mulheres forjadas no sacrifício e no trabalho, resignar-se-iam. Haveria um "podia ser pior" e, com toda a certeza, diriam: "estamos vivos". E talvez fosse isso que mais importava para elas. A vida acima de tudo. As casas reconstruíam-se. As colheitas voltavam a plantar-se. O que se perdia, chorava-se — mas seguia-se em frente. Não por indiferença, mas por necessidade. Porque a vida não esperava. Eu, que me queixava da chuva que molha sapatos e atrasa caminhos, vejo agora imagens de ruas alagadas, casas destruídas, vidas viradas do avesso. E a palavra “abundância” ganha outro peso. Nem toda a água que cai é bênção. Às vezes é provação. Às vezes é excesso que ar...

Entre a chatice da chuva e a sabedoria das avós

 Chuva e chuva e chuva.  Quem já não agenta tanta chuva, que levante a mão ☝ (Acabei de descobrir que o Blogger tem uma galeria de emojis... já me conquistou!). Perdoem-me, sou nova por aqui, ainda em modo exploração e descoberta. Eu preciso de luz solar para me abastecer de energia e vitalidade. Este tempo sombrio, cinza, carregado, suga-me a força, a energia vital.  Gosto de ouvir o som da chuva. Sobretudo se estiver em casa, com manta nas pernas e chávena de chá quente nas mãos. Andar de carro à chuva já é outra conversa. Ou a pé. Carregada com mala, mochila, lancheira, guarda-chuva que mal aguenta o vento. Mas voltemos à poesia da chuva.  Chuva é água que cai.  Água é Vida.  Chuva é abundância na natureza.  Quando me sinto farta de tanta chuva - semanas, meses a chover  (é inverno, eu sei) - vem um eco da memória e ouço as minhas avós: - A chuva faz muita falta . Um inverno sem chuva era prenúncio de um ano difícil para o cultivo. Ameaça de po...