Mensagens

A ilha que sou

Recentemente senti-me desconectada. De mim.  Não por me sentir perdida. Isso foi antes.  Desta vez foi diferente. Foi sentir que estava constantemente voltada para fora — para cumprir, responder, chegar, fazer, corresponder.  A agenda cheia de obrigações. A mente sempre no futuro. O foco permanente no tanto que está em espera e a sensação de sufoco por não conseguir chegar a tudo nos prazos definidos e esperados. Não me senti a falhar.  Não me senti insuficiente.  Senti-me assoberbada.  E desse lugar nasceu um cansaço profundo. Físico, sim, e acima de tudo, mental. Um cansaço em que deixei de encontrar espaço para mim. Para me ouvir. Para estar presente em mim. O ritmo acelerado. O ruído constante de tudo e todos à minha volta.  E naquele dia, num momento inusitado, percebi algo muito simples: eu não estava perdida, eu apenas me tinha afastado do meu trilho. Sem perceber, comecei a andar um pouco para o lado. Aquele lado de onde se ouvem tantas so...

Ansiedade

Imagem
 Ansiedade. Seria a palavra que melhor descreveria o meu mês de maio.  Aquela ansiedade que nasce quando a mente vive constantemente no futuro. Quando começo a entrar em parafuso perante a quantidade insana de coisas para fazer. A agenda profissional a transbordar. Dias que se prolongam para lá da hora de saída. E, mesmo assim, a sensação de nunca conseguir chegar a tudo. Quebrei um limite que tinha definido para mim, em nome do equilíbrio. Cheguei a casa tarde, exausta, e ainda assim liguei o portátil para trabalhar naquilo que exige maior concentração — precisamente aquilo para o qual, durante um dia demasiado preenchido, já não me restava energia nem capacidade de concentração. De repente, tudo se tornou agenda para cumprir. Até aquilo que deveria ser prazer, cuidado, bem-estar. A aula de pilates transformou-se num compromisso que me causava ansiedade. A aula de dança, com o peso acrescido dos ensaios do projeto coreográfico, passou a ser mais uma obrigação. A mentoria torn...

A Mulher que chega aos 45

 09 de maio de 2026... Completei 45 anos de vida. 45 voltas ao sol. Posso estar na exata metade da minha vida. Ou não. Não sei quantos anos tenho pela frente. Só sei que os quero viver com leveza. Com cada vez mais sabedoria e consciência. Quero viver com presença.  Chego aos 45 com a sensação de um novo despertar. Uma maior consciência de quem sou, do que me construiu ao longo da vida.  Os últimos cinco anos foram dedicados ao meu autoconhecimento. Recorri à terapia para lidar com a dor do luto, e a verdade é que o caminho se revelou muito maior. Uma jornada de verdadeira transformação. Atrevo-me a dizer que chego aos 45 como uma borboleta que finalmente se liberta do casulo e encontra coragem para voar.  Da criança que sentiu que a sua sobrevivência dependia da sua invisibilidade, de não ser vista, de não poder falar ou chamar a atenção, emerge uma mulher com alegria pela vida. Uma mulher criativa, divertida. Uma mulher com muita luz e muito fogo dentro de si. Uma ...

Passeio (quase) higiénico!

Imagem
Quando dei por terminado o meu dia de trabalho ontem, fiquei ali um momento indecisa: ir ou não à rua. Por um lado sentia o meu corpo a querer descanso na horizontal, por outro algo dentro de mim pedia sol e ar fresco na cara.  Calças de fato de treino, sweat, corta-vento. Equipei-me a preceito e saí. Cruzei-me com muitas pessoas a fazerem a sua caminhada, ou corrida, ao final da tarde. Calções, t-shirts. E eu ali, toda agasalhada, a parecer um peixe de boca aberta. Ofegante, sem sequer estar a fazer esforço físico. Soube-me bem o ar fresco da praia. O sol de fim de tarde na pele do rosto, na verdade a única pele exposta. Cheguei a casa cansada no corpo, e com algo mais leve na alma. Pelo caminho fui tirando fotos. Apreciando a vista. E agradecendo este privilégio de ter o mar ao fundo da rua, como quem vai ao quintal apanhar ar... e alfaces para o jantar. A gripe continua comigo, intensa e persistente. Eu continuo em teletrabalho, com formação online da parte da tarde. Sinto o cor...

A mesma porta, outra chave

Na época do COVID, quando todos estávamos em casa e o teletrabalho se tornou recurso para muitos profissionais, confesso que não gostei. Não gostei de estar trancada, de não haver uma fronteira física e definida entre o espaço de trabalho e o espaço doméstico e pessoal. Eu sei que o contexto era assustador: uma pandemia, muitas restrições, muita ansiedade e medo à mistura. Na altura, fiquei três meses em teletrabalho, desde a primeira ordem de confinamento. Fui das primeiras a regressar ao local de trabalho e circulava com uma declaração da entidade patronal no carro, para apresentar às autoridades, caso fosse questionada. Hoje estou em teletrabalho. Contexto totalmente diferente. Por estar com gripe, sugeri à chefia ficar em casa em regime remoto — antes isso do que faltar e deixar acumular. Posso não estar a 100% — nem em produtividade, nem em condições físicas —, ainda assim estou melhor do que se estivesse lá. Fato de treino, conforto térmico, sossego, chá de limão quente, medicaçã...

Quando o corpo impõe silêncio

Depois de uma semana emocionalmente intensa, marcada pela libertação de sombras que carregava — e de uma raiva que se soltou ao ver um "tribunal da moral" presidido por quem mais falha —, o meu corpo decidiu cobrar a fatura. É uma das experiências mais frustrantes da convivência humana: esse ruído que desafia a minha paz e mexe com as feridas da injustiça. E quando o barulho interno demora a acalmar, o corpo trata de impor o silêncio à sua maneira. Ontem, sem aviso, sem sinais, aconteceu o shut down . Uma gripe com direito a dores de corpo, mal-estar generalizado e um entupimento completo das vias respiratórias derrubou-me. Atirada para o sofá, apaguei. Hoje ainda estou convalescente. Um pouco melhor que ontem, mas ainda fragilizada. Optei pelo meio-termo: trabalhar em casa, no sossego e no conforto, com a caneca de chá a fumegar ao meu lado e sucessivos reforços de líquidos quentes — porque deixar acumular é uma forma de adoecer duas vezes. O corpo é muito sábio. Desde q...

Pôr do sol sem dia marcado

Imagem
Ontem aproveitei a chamada golden hour na minha esplanada preferida, perto de casa. Privilégios de morar na praia, tendo o mar como "quintal". E nesse momento, ao apreciar a vista, sentir a brisa no rosto, enquanto bebia uma cidra e petiscava uma empalhada (malta do Norte saberá), percebi que este simples programa de fim de tarde é muitas vezes relegado para uma sexta-feira, em modo arranque de fim-de-semana. São demasiadas as coisas que deixamos para o fim-de-semana, como se os prazeres só tivessem tempo e espaço para acontecer nesses dois dias. Ou momentos que adiamos para as férias. Ou projetos, ideias, sonhos que empurramos para quando nos reformarmos e tivermos mais tempo livre.  O meu pai tinha muitas ideias para a reforma. O meu sogro também. Nenhum dos dois chegou a vê-la. Os sonhos dissiparam-se nesse futuro, destino ao qual não chegaram.  Viver com prazer tornou-se um objetivo recente, presente e consciente nos meus dias. Chegar aqui demorou anos. Muitos anos. Era ...