Enquanto houver vida, há caminho

Sabia lá eu que depois de escrever o meu último texto, a ressignificar o cansaço de tanta chuva, estaria por vir uma sucessão de tempestades que deixaram parte do país num estado de catástrofe. 

Que diriam as minhas avós perante tamanha tragédia? Provavelmente entregariam nas mãos dos desígnios divinos, e como mulheres forjadas no sacrifício e no trabalho, resignar-se-iam. Haveria um "podia ser pior" e, com toda a certeza, diriam: "estamos vivos".

E talvez fosse isso que mais importava para elas. A vida acima de tudo. As casas reconstruíam-se. As colheitas voltavam a plantar-se. O que se perdia, chorava-se — mas seguia-se em frente. Não por indiferença, mas por necessidade. Porque a vida não esperava.

Eu, que me queixava da chuva que molha sapatos e atrasa caminhos, vejo agora imagens de ruas alagadas, casas destruídas, vidas viradas do avesso. E a palavra “abundância” ganha outro peso. Nem toda a água que cai é bênção. Às vezes é provação. Às vezes é excesso que arrasta.

Talvez a sabedoria das minhas avós não fosse apenas aceitar. Era também recomeçar. Arregaçar as mangas. Ajudar o vizinho. Partilhar o pouco que restava. Confiar e agir.

E, no meio da força indomável da natureza, fica a mesma verdade simples que elas repetiriam: enquanto houver vida, há caminho. Mesmo que seja preciso reconstruí-lo, pedra a pedra.

Hoje escrevo num dia de sol. Aproveitei o fim de semana para me abastecer dessa energia que aquece e vibra. E, nestes dias luminosos, a esperança ganha nova força. 

Confiar e agir. Porque a vida não espera. Talvez seja esse o legado mais simples e mais poderoso que as minhas avós me deixaram. 


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