Pôr do sol sem dia marcado


Ontem aproveitei a chamada golden hour na minha esplanada preferida, perto de casa. Privilégios de morar na praia, tendo o mar como "quintal".

E nesse momento, ao apreciar a vista, sentir a brisa no rosto, enquanto bebia uma cidra e petiscava uma empalhada (malta do Norte saberá), percebi que este simples programa de fim de tarde é muitas vezes relegado para uma sexta-feira, em modo arranque de fim-de-semana.

São demasiadas as coisas que deixamos para o fim-de-semana, como se os prazeres só tivessem tempo e espaço para acontecer nesses dois dias. Ou momentos que adiamos para as férias. Ou projetos, ideias, sonhos que empurramos para quando nos reformarmos e tivermos mais tempo livre. 

O meu pai tinha muitas ideias para a reforma. O meu sogro também. Nenhum dos dois chegou a vê-la. Os sonhos dissiparam-se nesse futuro, destino ao qual não chegaram. 

Viver com prazer tornou-se um objetivo recente, presente e consciente nos meus dias.

Chegar aqui demorou anos. Muitos anos.

Era eu aluna do 9.º ano quando a minha professora de português - daquelas professoras inesquecíveis, que nos inspiram para a vida - mostrou, em contexto de aula, o filme O Clube dos Poeta Mortos. Guardo esse momento até hoje. Naquele dia descobri um dos filmes da minha vida, daqueles que ficam gravados na alma. A mensagem Carpe Diem passou a acompanhar-me e, anos mais tarde, nos meus estudos literários da Antiguidade Clássica, cruzei-me com os poetas e filósofos do estoicismo e epicurismo: Carpe Diem - aproveita o dia, vive o momento. A vida é como um rio que flui e não volta atrás. A fugacidade do tempo. A fragilidade da vida. A importância de viver cada momento como se fosse o último.

A teoria ficou gravada. Um eco que surgia em determinados momentos, lembrando-me da urgência de viver plenamente, com prazer, amorosidade, alegria - mas logo abafado pelo ruído com que nos rodeamos e distraímos. 

Reconheço que este último ano foi essencial para integrar realmente aquele conhecimento que antes apenas debitava na teoria, sem que o sentisse ou experienciasse de fato.

E aqui estou eu: saí do mental, do racional, da teoria, para passar a sentir, experienciar, viver. Carpe Diem. Aqui. Agora. 

Então, sim: não deixar para sexta o pôr do sol que posso assistir numa segunda-feira. Aprendi que os simples prazeres da Vida não têm dia marcado. O momento é agora, e só eu posso decidir vivê-lo.


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