A mesma porta, outra chave
Na época do COVID, quando todos estávamos em casa e o teletrabalho se tornou recurso para muitos profissionais, confesso que não gostei. Não gostei de estar trancada, de não haver uma fronteira física e definida entre o espaço de trabalho e o espaço doméstico e pessoal.
Eu sei que o contexto era assustador: uma pandemia, muitas restrições, muita ansiedade e medo à mistura.
Na altura, fiquei três meses em teletrabalho, desde a primeira ordem de confinamento. Fui das primeiras a regressar ao local de trabalho e circulava com uma declaração da entidade patronal no carro, para apresentar às autoridades, caso fosse questionada.
Hoje estou em teletrabalho. Contexto totalmente diferente. Por estar com gripe, sugeri à chefia ficar em casa em regime remoto — antes isso do que faltar e deixar acumular. Posso não estar a 100% — nem em produtividade, nem em condições físicas —, ainda assim estou melhor do que se estivesse lá.
Fato de treino, conforto térmico, sossego, chá de limão quente, medicação quando preciso.
A verdade é que, durante a manhã, limpei a caixa de email geral do serviço e, agora à tarde, posso dedicar-me a outro trabalho, que exige silêncio e concentração: a elaboração de procedimentos no âmbito do PDCA e da Qualidade de Serviço. Coisas pouco adoráveis — embora necessárias.
O contexto muda tudo. A mesma ferramenta pode ser prisão ou abrigo — depende da forma como escolho abrir a porta.
E, uns anos depois, aquilo que foi prisão, em contexto de pandemia, é hoje uma alternativa viável que antes não existia, ou dificilmente seria considerada. A pandemia não deixou apenas marcas profundas de destruição, medo e incerteza. Trouxe também outros caminhos, abriu portas, revelou a força dos persistentes.
Foi ponto de viragem. Uma mudança na forma como vivemos e nos organizamos no mundo.
Como qualquer lição, nem todos a aprendem da mesma forma — ou a aprendem, sequer.
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