Na comparação, eu perco-me
Recentemente tenho estado mais calada.
Mais recolhida. Mais em casa. Mais em mim.
E, curiosamente, é quando estou mais neste lugar que mais facilmente me confronto com um tipo de ruído diferente — não o do mundo à minha volta, mas o das histórias que chegam até mim.
Os áudios de uma amiga, cheios de vida social, de jantares, de encontros, de concertos, de praia, de movimento.
E eu ouço. Às vezes páro o audio para ficar a respirar no silêncio.
E sorrio. Ou não.
E algo subtil acontece por dentro.
Uma comparação silenciosa começa a ganhar espaço.
Como se a vida dela estivesse cheia de momentos altos e a minha estivesse… mais quieta. Mais pequena. Menos interessante. Vazia.
Mesmo sabendo, racionalmente, que isto não é verdade.
A minha vida também está cheia. Só não está cheia de barulho.
Está cheia de livros. De descanso. De casa arrumada. De silêncio. De pausas. De cansaço. De necessidade de recolhimento.
Mas há momentos em que isso não parece suficiente.
Há momentos em que o mundo parece medir a vida pelo número de coisas que acontecem fora.
E eu esqueço-me, por instantes, de que também há vida no que não se vê.
No que não se publica. No que não se conta em áudio, porque nada há a contar depois de um desfiar de agenda cheia de compromissos sociais, saídas, encontros, jantares, copos.
Na comparação saímos a perder. Porque quando nos comparamos, colocamo-nos sempre no lugar do menos.
Eu, na comparação, perco o lugar onde estava, vou para mais longe de mim e, posso, esquecer-me de mim própria.

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