Eu queria análises. Ele mostrou Mounjaro.
No último sábado fui a uma consulta de endocrinologia.
Não foi a minha primeira. Em 2018 também procurei a especialidade, fiz análises e um check up a nível da tiróide . Estava tudo impecável.
Há uns meses senti uma saliência no lado esquerdo do pescoço. Não entrei em pânico, nem hiperventilei, nem fui pesquisar ao Dr. Google ou ao Dr. Chat GPT. Aproveitei que andava a pensar em fazer novo check up a nível metabólico, hormonal e marquei consulta.
E foi assim que entrei no consultório: com as análises que tinha feito em 2018, outras de 2023, realizadas no âmbito do acompanhamento de fertilidade, e análises gerais do ano passado.
Sentei-me e disse ao que ia.
O caroço.
Os 45 anos e o facto de, apesar de não ter sintomas ou indícios de perimenopausa, estar mais perto dessa fase, e querer, por isso, fazer um check up hormonal, metabólico, e à tiróide.
E eis que o endocrinologista me indica a balança.
Daquelas que medem a consistência da alma.
Excesso de peso para a minha altura - já sabia. O cáluclo do IMC, coloca-me, portanto, no índice de obesidade.
Nada de novo para mim. Também sei ir à net e calcular o IMC.
Boa massa muscular.
Essa não sabia. Ainda bem. Sinal que o Pilates e a musculação estão a surtir efeito.
Um pouco desidratada - no dia anterior tinha bebido álcool.
Volto à minha cadeira.
E eis que uma entidade qualquer baixou ali no médico e assisto, atónita, a toda uma apresentação e demonstração das famosas canetas Mounjaro.
E a ideia dele era eu começar já o tratamento.
A dada altura, dei por mim a fazer um tremendo esforço para não me levantar e simplesmente sair do consultório.
Deixei-o desfiar toda a ladainha sobre as maravilhas do Mounjaro.
Quando finalmente olhou para mim e pergunta:
- Tem perguntas, dúvidas?
Respiro fundo.
Olho-o nos olhos.
E respondo:
- Estou um pouco surpreendida com esta abordagem. A minha expetativa para esta primeira (e reforçei bem a entoação do primeira) consulta era fazer um histórico e ter uma prescrição para análises e perceber o meu estado e, só depois dos resultados, avaliarmos as necessidades e possibilidades de tratamento, caso haja efetivamente necessidade.
Eu não entrei ali a querer emagrecer.
Se o meu IMC de obesidade for só isso mesmo, "peso a mais para a altura", e isso não tiver qualquer impacto negativo ou prejudicial na minha saúde, deixem-me estar quieta com as minhas curvas.
- Além disso (continuei), mesmo que avance para um protocolo de tratamento com o Mounjaro, a pergunta que se impõe no imediato é "e depois"?
E depois do tratamento terminar?
Qual a probabilidade de voltar a ganhar o peso?
Isto será mais um daqueles tratamentos que, enquanto duram, funcionam e , quando acabam, nos devolvem ao ponto de partida?
Sabe, é que já tenho um histórico de acompanhamento nutricional - por nutricionistas, medicina integrativa, e até homeopatia.
Já tomei os "manipulados" e não surtiram qualquer efeito.
O tratamento homeopático, com recurso a alimentação e suplementação, não teve propriamente como resultado uma perda de peso, mas desinflamei o organismo, regularizei o intestino, perdi volume.
Quero acreditar que ele ouviu. Uma parte. A que tinha lá pelo meio Mounjaro. Porque foi a essa parte que respondeu.
- Claro que só a caneta não funciona. O que irá sustentar os resultados do tratamento é uma mudança de hábitos de vida, alimentar e exercício físico.
- OK. A minha alimentação já é low carb, com maior incidência de consumo de proteína, gordura e fibra, baixa em hidratos e açúcares. Exercício físico também pratico.
E ele continuou...
Sem me ouvir.
Tão pouco o vi a registar as informações que lhe estava a passar sobre o meu histórico e hábitos.
E foi aí que percebi o que me estava realmente a incomodar.
Eu não me senti vista.
Não me senti ouvida.
Senti simplesmente que tinha entrado num consultório para assistir a uma venda de Mounjaro que não solicitei nem manifestei interesse em fazer.
Mantive-me firme.
Saí de lá com uma prescrição para análises a vários parâmetros: ALT, AST, Colesterol, Cortisol, Hemograma, Ferritina, Ionograma, TSH, Vitaminas B12 e D, entre outros.
E, sinceramente, não é a este médico que tenciono voltar quando tiver os resultados.
Não me interpretem mal.
Não tenho nada contra o Mounjaro.
É um medicamento. E pode ter o seu lugar no tratamento da obesidade.
Também não sou médica.
Contudo, diz-me o bom senso que, antes de iniciar seja qual for o tratamento, é necessário, regra geral, conhecer a pessoa. Perceber o seu histórico. Ouvir. Avaliar. Fazer os exames necessários.
Vender Mounjaro numa primeira consulta, sem conhecer o paciente e sem mostrar verdadeiro interesse pelas informações e pelo histórico que este traz, não me transmite segurança nem confiança.
E, ironicamente, esta abordagem também não abona muito a favor da própria "milagrosa" caneta.
Como se não bastasse a muita (des)informação que circula nas redes sociais, ter profissionais de saúde com uma abordagem destas só me deixa ainda mais de pé atrás.
E já que, a par do tratamento, também se fala de hábitos alimentares e exercício físico — precisamente aquilo que irá contribuir para a manutenção dos resultados —, que tal começar por aí?
Se não houver resultados suficientes, então avaliamos a possibilidade de recorrer à medicação.
Não estou a julgar ninguém.
Estou a partilhar uma experiência.
O que senti.
A minha percepção daquela consulta.
Porque se fala e prescreve Mounjaro com uma leviandade que me incomoda.
Como se fosse a resposta para todos os males, que parecem resumir-se a uma única coisa: emagrecer.
Mesmo quando não foi esse o motivo que levou uma pessoa, EU, a marcar consulta.
Nota final: o caroço, feita a ecografia à tiróide, é um nódulo de gordura subcutânea. A tiróide está ótima e recomenda-se.
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