Meu corpo, minha casa
Durante muitos anos, cuidei do meu corpo porque queria que ele mudasse. Procurei ajuda profissional para aprender a alimentar-me melhor, experimentei diferentes abordagens alimentares e empurrei-me para o exercício físico — algo de que nunca gostei verdadeiramente. Tudo isto sem perceber que vivia em luta contra o meu corpo.
À procura de uma mudança que me aproximasse de um suposto ideal: o peso certo para a altura, o tamanho da etiqueta, o padrão da beleza feminina. Como se, ao chegar aí, finalmente encontrasse a sensação de pertencer.
E isto era fazer do cuidado uma negociação.
"Eu trato bem de ti... se tu me deres outro corpo."
Só recentemente comecei a perceber que isso nunca foi cuidado.
Foi uma condição.
Foi um contrato silencioso.
Se emagrecer, gosto mais de mim.
Se o espelho corresponder às minhas expectativas, então mereço comprar roupa, tirar fotografias, ocupar espaço.
Se voltar a vestir o tamanho 36 que vestia aos 20, vou voltar a sentir-me bem e bonita. Como se me tivesse sentido bonita aos 20...
E, sem dar por isso, fui pedindo ao meu corpo que provasse o seu valor.
Hoje quero experimentar outra forma de estar. Porque não sou a mulher que não cabe ou tem de se encolher muito para caber.
Posso alimentar-me bem.
Posso fazer exercício.
Posso cuidar da minha saúde.
Mas já não quero fazê-lo contra o meu corpo.
Quero fazê-lo com ele.
E a favor dele.
Porque este corpo continua a ser digno de cuidado, de conforto e de alegria exatamente na fase da vida em que está.
Durante todos estes anos, o meu corpo nunca deixou de ser a minha casa. Passei demasiado tempo a olhar para ela como uma casa em constante remodelação, onde via apenas defeitos para corrigir, nunca um lugar para habitar.
Talvez o meu corpo nunca me tenha pedido para ser mais pequeno.
Talvez só me tenha pedido para ser mais escutado.
Para ser visto.
Respeitado.
Habitado.
E talvez seja isso que finalmente estou a aprender: deixar de pedir ao meu corpo que prove o seu valor.
E começar a oferecer-lhe o respeito que ele sempre mereceu.
Porque a minha vida não começa quando o meu corpo muda.
A minha vida está a acontecer agora.
E eu quero habitá-la inteira.
Porque nem eu, nem o meu corpo, voltaremos a encolher para caber.
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