A ilha que sou

Recentemente senti-me desconectada. De mim. 

Não por me sentir perdida. Isso foi antes. 

Desta vez foi diferente.

Foi sentir que estava constantemente voltada para fora — para cumprir, responder, chegar, fazer, corresponder. 

A agenda cheia de obrigações. A mente sempre no futuro. O foco permanente no tanto que está em espera e a sensação de sufoco por não conseguir chegar a tudo nos prazos definidos e esperados.

Não me senti a falhar. 

Não me senti insuficiente. 

Senti-me assoberbada. 

E desse lugar nasceu um cansaço profundo. Físico, sim, e acima de tudo, mental. Um cansaço em que deixei de encontrar espaço para mim. Para me ouvir. Para estar presente em mim.

O ritmo acelerado.

O ruído constante de tudo e todos à minha volta. 

E naquele dia, num momento inusitado, percebi algo muito simples: eu não estava perdida, eu apenas me tinha afastado do meu trilho. Sem perceber, comecei a andar um pouco para o lado. Aquele lado de onde se ouvem tantas solicitações, como se apenas eu tivesse responsabilidade de fazer, resolver, cumprir. 

Tudo em crescendo. Em sobreposição. 

Deixei de ver o caminho com nitidez, ofuscada pelas múltiplas placas que apontavam em direções diferentes, como se todos os sentidos fossem obrigatórios. 

E numa encruzilhada, parei. Escutei-me.

E percebi que precisava de me afastar da ilha para conseguir ver a ilha. 

Essa ilha sou eu.

A distância traz novas perspetivas. E o regresso à ilha é um caminho solitário, sem ruídos ou distrações. Eu preciso da minha solitude para me abastecer, para me equilibrar. E precisei de me afastar, ver de longe, ganhar um olhar mais amplo - e perceber exatamente onde tinha de regressar e o que precisava de recuperar. 

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