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Pôr do sol sem dia marcado

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Ontem aproveitei a chamada golden hour na minha esplanada preferida, perto de casa. Privilégios de morar na praia, tendo o mar como "quintal". E nesse momento, ao apreciar a vista, sentir a brisa no rosto, enquanto bebia uma cidra e petiscava uma empalhada (malta do Norte saberá), percebi que este simples programa de fim de tarde é muitas vezes relegado para uma sexta-feira, em modo arranque de fim-de-semana. São demasiadas as coisas que deixamos para o fim-de-semana, como se os prazeres só tivessem tempo e espaço para acontecer nesses dois dias. Ou momentos que adiamos para as férias. Ou projetos, ideias, sonhos que empurramos para quando nos reformarmos e tivermos mais tempo livre.  O meu pai tinha muitas ideias para a reforma. O meu sogro também. Nenhum dos dois chegou a vê-la. Os sonhos dissiparam-se nesse futuro, destino ao qual não chegaram.  Viver com prazer tornou-se um objetivo recente, presente e consciente nos meus dias. Chegar aqui demorou anos. Muitos anos. Era ...

Despir a capa da Salvadora

Durante uma grande parte da minha vida acreditei que estar sempre disponível para os outros era uma forma de ter pessoas na minha vida. Uma forma de gostarem de mim.  E doía quando era eu que precisava de uma mão estendida, de um ombro amigo, de um ouvido disponível - e percebia o quão sozinha eu estava. Fui percebendo que eu era a amiga dos desabafos. Largavam o lixo emocional em mim, saíam mais leves e soltos, e eu ficava sozinha... com toda a carga que tinham despejado. Quando iniciei um processo de terapia e desenvolvimento pessoal comecei a entender o padrão. O meu padrão. As minhas carências, as minhas feridas emocionais. O complexo da "salvadora" que tira todos do fundo do poço e depois fica lá, sozinha. O medo de estar sozinha transformou-se, na verdade, na força que hoje encontro na minha solitude.  Despi a capa da salvadora e ganhei leveza. E espaço para mim própria.  Não foi egoísmo. Foi um imenso ato de amor próprio. Primeiro estranhei, claro. E depois de algu...

Enquanto houver vida, há caminho

Sabia lá eu que depois de escrever o meu último texto, a ressignificar o cansaço de tanta chuva, estaria por vir uma sucessão de tempestades que deixaram parte do país num estado de catástrofe.  Que diriam as minhas avós perante tamanha tragédia? Provavelmente entregariam nas mãos dos desígnios divinos, e como mulheres forjadas no sacrifício e no trabalho, resignar-se-iam. Haveria um "podia ser pior" e, com toda a certeza, diriam: "estamos vivos". E talvez fosse isso que mais importava para elas. A vida acima de tudo. As casas reconstruíam-se. As colheitas voltavam a plantar-se. O que se perdia, chorava-se — mas seguia-se em frente. Não por indiferença, mas por necessidade. Porque a vida não esperava. Eu, que me queixava da chuva que molha sapatos e atrasa caminhos, vejo agora imagens de ruas alagadas, casas destruídas, vidas viradas do avesso. E a palavra “abundância” ganha outro peso. Nem toda a água que cai é bênção. Às vezes é provação. Às vezes é excesso que ar...

Entre a chatice da chuva e a sabedoria das avós

 Chuva e chuva e chuva.  Quem já não agenta tanta chuva, que levante a mão ☝ (Acabei de descobrir que o Blogger tem uma galeria de emojis... já me conquistou!). Perdoem-me, sou nova por aqui, ainda em modo exploração e descoberta. Eu preciso de luz solar para me abastecer de energia e vitalidade. Este tempo sombrio, cinza, carregado, suga-me a força, a energia vital.  Gosto de ouvir o som da chuva. Sobretudo se estiver em casa, com manta nas pernas e chávena de chá quente nas mãos. Andar de carro à chuva já é outra conversa. Ou a pé. Carregada com mala, mochila, lancheira, guarda-chuva que mal aguenta o vento. Mas voltemos à poesia da chuva.  Chuva é água que cai.  Água é Vida.  Chuva é abundância na natureza.  Quando me sinto farta de tanta chuva - semanas, meses a chover  (é inverno, eu sei) - vem um eco da memória e ouço as minhas avós: - A chuva faz muita falta . Um inverno sem chuva era prenúncio de um ano difícil para o cultivo. Ameaça de po...

Nova moradora

Sinto-me uma estranha numa casa desconhecida. Tímida, ainda a descobrir os cantos. À procura das ferramentas e utensílios que preciso para começar a dar aquele toque pessoal, como quem tenta, devagar, sentir-se em casa.  Apresento-me... Pandora.  Tinha a minha Caixa de Estórias alojada no Sapo.  E eis que recebo, com surpresa, consternação e profunda tristeza, uma ordem de despejo. O bairro vai fechar, com data marcada para demolição total, que é como quem diz, com jeitinho, tirem tudo daqui porque vai desaparecer para todo o sempre. Da perplexidade à frustração foi um piscar de olhos.  E já que o aviso veio assim, seco, duro, assertivo, tratei de seguir as instruções, embalei o conteúdo de anos e mudei de casa. De bairro. Todas as estórias guardadas na minha Caixa salvaram-se e já estão aqui. Abençoada por a migração ter sido rápida e eficaz.  Respiro de alívio por não perder pelo caminho anos das estórias que me habitam.  E, agora que cheguei e salvei o m...

Leituras 2025 (Goodreads)

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Cortesia do Goodreads enviar por email, em jeito de relatório anual, algumas imagens que resumem as leituras de 2025. Iniciei o ano otimista, a lançar-me o desafio de ler 20 livros. Terminei ontem o 16º. Um thriller daqueles que me agarram até às 5h da manhã (estou de férias). Uma autora que era novidade para mim: Karin Slaughter. Tomei nota do nome num dos podcasts que ouço sobre livros — um perigo estes podcasts, a sério. A lista dos "livros que quero ler" aumenta a um ritmo alucinante. Quem me dera ter o mesmo ritmo — e tempo — para ler. Emprego de sonho: ser paga para ler livros. O chá ficava por minha conta.  Escrevia eu sobre esta recente descoberta de uma aclamada autora de thrillers, daqueles mesmo bons, Karin Slaughter. Tenho mais dois livros dela no Kobo para ler. E mais uns quantos na Whislist, à espera da sua vez. Palpita-me que não ficarão muito tempo à espera.  Um nome a juntar à lista dos meus autores preferidos do género, nomes como Leslie Wolfe , Rober...

E, enfim, foi Natal!

Respiro, agora, o alívio de já ter passado o Natal. Para o ano há mais... e assim coloco uma ligadura nas feridas reabertas nestes dias.  A época natalícia começa cedo, bem antes do dia 25 de dezembro. Chega engalanada de brilho, luzes, laços. Instala-se nos dias vestida de vermelho vibrante, dourados reluzentes, estrelas e anjos, pais natais e duendes de sorrisos alegres. Apregoa-se a união, a partilha, a solidariedade. Dar e receber - presentes. Multiplicam-se as expetativas de uma época feliz, alegre, plena de sorrisos e amor entre as pessoas. A festa da família. E nas sombras, entre o piscar das luzes, há quem sorria por fora e por dentro anseia que a época passe para voltar a ter espaço para respirar. O Natal também se veste de saudade, quando o coração lembra de quem e do que falta. Pode ser vazio. Um sentimento de não pertença - uma solidão que pesa e sufoca. O Natal pode ser dor. Tristeza. Angústia. Quando traumas antigos são arrancados das profundezas onde jazem e ecoam mem...