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Nova moradora

Sinto-me uma estranha numa casa desconhecida. Tímida, ainda a descobrir os cantos. À procura das ferramentas e utensílios que preciso para começar a dar aquele toque pessoal, como quem tenta, devagar, sentir-se em casa.  Apresento-me... Pandora.  Tinha a minha Caixa de Estórias alojada no Sapo.  E eis que recebo, com surpresa, consternação e profunda tristeza, uma ordem de despejo. O bairro vai fechar, com data marcada para demolição total, que é como quem diz, com jeitinho, tirem tudo daqui porque vai desaparecer para todo o sempre. Da perplexidade à frustração foi um piscar de olhos.  E já que o aviso veio assim, seco, duro, assertivo, tratei de seguir as instruções, embalei o conteúdo de anos e mudei de casa. De bairro. Todas as estórias guardadas na minha Caixa salvaram-se e já estão aqui. Abençoada por a migração ter sido rápida e eficaz.  Respiro de alívio por não perder pelo caminho anos das estórias que me habitam.  E, agora que cheguei e salvei o m...

Leituras 2025 (Goodreads)

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Cortesia do Goodreads enviar por email, em jeito de relatório anual, algumas imagens que resumem as leituras de 2025. Iniciei o ano otimista, a lançar-me o desafio de ler 20 livros. Terminei ontem o 16º. Um thriller daqueles que me agarram até às 5h da manhã (estou de férias). Uma autora que era novidade para mim: Karin Slaughter. Tomei nota do nome num dos podcasts que ouço sobre livros — um perigo estes podcasts, a sério. A lista dos "livros que quero ler" aumenta a um ritmo alucinante. Quem me dera ter o mesmo ritmo — e tempo — para ler. Emprego de sonho: ser paga para ler livros. O chá ficava por minha conta.  Escrevia eu sobre esta recente descoberta de uma aclamada autora de thrillers, daqueles mesmo bons, Karin Slaughter. Tenho mais dois livros dela no Kobo para ler. E mais uns quantos na Whislist, à espera da sua vez. Palpita-me que não ficarão muito tempo à espera.  Um nome a juntar à lista dos meus autores preferidos do género, nomes como Leslie Wolfe , Rober...

E, enfim, foi Natal!

Respiro, agora, o alívio de já ter passado o Natal. Para o ano há mais... e assim coloco uma ligadura nas feridas reabertas nestes dias.  A época natalícia começa cedo, bem antes do dia 25 de dezembro. Chega engalanada de brilho, luzes, laços. Instala-se nos dias vestida de vermelho vibrante, dourados reluzentes, estrelas e anjos, pais natais e duendes de sorrisos alegres. Apregoa-se a união, a partilha, a solidariedade. Dar e receber - presentes. Multiplicam-se as expetativas de uma época feliz, alegre, plena de sorrisos e amor entre as pessoas. A festa da família. E nas sombras, entre o piscar das luzes, há quem sorria por fora e por dentro anseia que a época passe para voltar a ter espaço para respirar. O Natal também se veste de saudade, quando o coração lembra de quem e do que falta. Pode ser vazio. Um sentimento de não pertença - uma solidão que pesa e sufoca. O Natal pode ser dor. Tristeza. Angústia. Quando traumas antigos são arrancados das profundezas onde jazem e ecoam mem...

Memórias dos sentidos: quando o corpo lembra

Na semana passada, na banca de frutas e legumes que fica no largo da vila, comprei umas tangerinas. Não seria nada de extraordinário, não fosse esta fruta da época despertar os meus sentidos e levar-me, num instante, até à infância. Até ao quintal da minha avó.  Mal olhei para a caixa com aquelas tangerinas, a memória da visão puxou-me para trás no tempo. Eram exatamente iguais às que eu colhia da tangerineira do quintal: a mesma cor viva, quase luminosa; o mesmo tamanho redondo e regular; as mesmas folhas verdes ainda presas ao caule, como se tivessem acabado de ser colhidas por cuidadosas e rugosas mãos. Peguei numa e aproximei-a do nariz. O aroma era o mesmo - fresco, cítrico, doce, quase a prometer sol no frio do inverno. Fechei brevemente os olhos e vi-me, menina, debaixo dos ramos da árvore, em bicos de pés e braços esticados para colher a mais madura, a mais doce. A descascá-la, ali mesmo, deixando o perfume espalhar-se pelo ar e pelas minhas mãos. A saborear, gomo a gomo, aqu...

Onde o Corpo Habita o Tempo

Vivemos grande parte do tempo em desfasamento. O corpo está num lugar, mas a mente vagueia em universos paralelos. Ora regressa ao que foi, ora antecipa o que ainda não aconteceu. Saltamos entre passado e futuro como quem atravessa pontes invisíveis, esquecendo-nos, muitas vezes, do único lugar onde a vida realmente acontece: o agora. O corpo, esse, nunca sai daqui. O corpo vive sempre no presente. Ele respira agora. O coração bate agora. A pele sente a temperatura agora. Mesmo quando estamos presos em memórias antigas ou em ansiedades futuras, é o corpo que continua aqui, ligado ao instante efémero do agora. O corpo é a nossa âncora. É nele que a vida acontece em tempo real. É através do corpo que sentimos, que percebemos, que experienciamos. É no corpo que a vida acontece. Agora. Tomar atenção ao corpo é regressar e ancorar no agora. Quantas vezes o dia começa com a mente acelerada antes mesmo dos pés tocarem o chão? Quantas vezes comemos sem saborear, caminhamos sem sentir os...

É no simples que está o belo!

O mundo está repleto de simples milagres.  Um campo de flores que se abrem em múltiplas cores, polvilhando a terra de vários tons. Folhas dançando ao vento, como notas de uma sinfonia celestial. Florestas onde cada árvore carrega a sua própria história. O mar, com a sua força selvagem e indomável, trazendo força e calmaria ao mesmo tempo. A chuva que cai, molhando a terra e renovando a vida que dela brota. A lua cheia iluminando o céu à noite. Tempestades que rasgam o céu, relâmpagos que cortam a escuridão. Estrelas surgindo no céu infinito, lembrando-nos da vastidão e da magia que nos cerca. Cada instante na natureza guarda o seu próprio milagre. Cada movimento, cada brilho, cada som é uma lembrança de que o mundo está vivo e pulsando. Basta abrir os olhos e sentir. E cada um de nós faz parte deste mundo. Cada um de nós é, também, um milagre de vida. E será que conseguimos ou sabemos sentir esse milagre dentro de nós? Em cada respiração. Em cada batimento cardíaco. Em cada ...

Dias Inconstantes, Leituras Imperfeitas

Olho para a minha meta de leituras definida para 2025 e sinto-me em falta. Dos 20 livros que me propus ler este ano, ainda só li 13, iniciei este fim de semana o 14º.  Houve fases de inconstância. Ora li um livro num só dia, ora estive dois meses sem ler.  A inconstância ou impermanência faz parte da natureza da vida. Até as estações do ano andam inconstantes, ora temos um fim de semana de sol seguido de uma semana de temporal bravio. Ora temos um dia com temperatura amena e seguem-se dias com um frio digno do ártico. Uns dias sentimo-nos calmas e serenas, outros num rebuliço emocional. E cansaço. Muito cansaço.  E olhando para a pilha de livros por ler (porque o cansaço não impede acrescentar novos à fila de espera), percebo que o problema nunca é a falta de vontade. É o fluxo natural da vida a empurrar-me, ora para dentro ora para fora de mim, tal como as marés. Se há dias que a leitura me abraça e acolhe, outros há que a cabeça mal consegue agarrar-se a uma única frase. Chega o...