E, enfim, foi Natal!

Respiro, agora, o alívio de já ter passado o Natal. Para o ano há mais... e assim coloco uma ligadura nas feridas reabertas nestes dias. 

A época natalícia começa cedo, bem antes do dia 25 de dezembro. Chega engalanada de brilho, luzes, laços. Instala-se nos dias vestida de vermelho vibrante, dourados reluzentes, estrelas e anjos, pais natais e duendes de sorrisos alegres. Apregoa-se a união, a partilha, a solidariedade. Dar e receber - presentes. Multiplicam-se as expetativas de uma época feliz, alegre, plena de sorrisos e amor entre as pessoas. A festa da família.

E nas sombras, entre o piscar das luzes, há quem sorria por fora e por dentro anseia que a época passe para voltar a ter espaço para respirar. O Natal também se veste de saudade, quando o coração lembra de quem e do que falta.

Pode ser vazio. Um sentimento de não pertença - uma solidão que pesa e sufoca. O Natal pode ser dor. Tristeza. Angústia. Quando traumas antigos são arrancados das profundezas onde jazem e ecoam memórias dolorosas, tudo se amplifica.

Este Natal foi-me pesado. Senti-me vazia. Desamparada, qual criança sem colo e aconchego, deambulando entre as dores do passado e os sonhos perdidos. O cheiro a canela, o tilintar das decorações, o piscar das múltiplas luzes, as canções que enchem os ambientes - tudo se tornou apenas ruído ao lado do silêncio que trazia dentro de mim.

E assim, entre lágrimas silenciosas e o cansaço de quem muito se esforça por fingir normalidade, senti a tristeza reclamar o seu lugar. Recolhi-me e cuidei de mim. Aceitei a tristeza que me habita, que é parte da minha história, das memórias que se cristalizaram e me moldaram, dos sonhos que a criança que fui ainda guardava. E, nesse instante - que se arrastou por dias - percebi que, ao acolher essa dor, lhe dou espaço para se transformar.

Um dia, talvez num próximo Natal, essa dor se fará sentir mais leve, abrindo caminho para a alegria que ainda pulsa no meu peito - um Natal realmente meu, mágico, cheio de laços de amor, pertencimento e renovada esperança. 

Ainda não recuperei o meu brilho. A tristeza que me invadiu e ocupou cada canto do meu corpo ainda resiste. Exausta, tenho-me permitido descansar. Dar-me tempo para recuperar e regenerar. 

Neste descanso, sem pressa ou pressão, descubro que estar presente para mim mesma, conversar com a minha própria dor e aceitar a minha vulnerabilidade é reconhecer que a vida se constrói nos instantes de quietude e silêncio. Vou sentindo uma luz que me atravessa, devagar, tal como o sol que insiste em nascer todos os dias, mesmo depois da noite mais fria.

E, nesse renascer silencioso, descubro que posso florescer exatamente aqui, neste instante. A minha presença é abrigo, o meu coração é abraço. A tristeza faz parte do meu caminho e é também solo fértil onde a força e a esperança encontram espaço para crescer. A cada dia que passa, sinto a minha própria luz regressar por entre as sombras, suavemente, lembrando-me que ainda sou inteira, ainda sou vida, ainda sou caminho.  

 

Comentários

  1. Tal e qual amiga, tal e qual.
    Por aqui falamos em como gerir tudo isto, de forma mais saudável, nos próximos anos.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Convido-te a partilhar