Menos ruído, mais eu
O marido mudou, novamente, de horário de trabalho.
Houve alteração em maio, agora voltou a haver outra. É preciso reajustar o quotidiano. O ram-ram do dia-a-dia.
Ontem saí do trabalho e passei no supermercado. Cheguei a casa e não o tinha à minha espera.
Arrumei compras. Comecei a preparar o jantar - peito de frango estufado com legumes.
Enquanto cortava a carne, picava a cebola, juntava temperos e fazia o refogado, fui ouvindo episódios de podcasts. Temas leves, humorísticos. Uma companhia discreta para o final do dia.
Com o tacho ao lume, sentei-me a ler. Comecei um novo livro. Estou a gostar.
Pus a mesa só para mim. Kobo à frente. Preferi continuar a ler enquanto jantava, em vez de ligar a televisão e acrescentar mais ruído ao dia.
E foi assim até ele chegar a casa.
TV desligada.
Primeiro podcasts.
Depois o silêncio. Acompanhada de um livro.
E foi assim que percebi que ultimamente tenho evitado ruído.
Essencialmente.
Ontem saí do trabalho com uma ligeira dor de cabeça, a sentir-me drenada, sem energia. A tranquilidade em casa devolveu-me uma sensação de bem estar.
A dor de cabeça passou.
A energia regressou.
O silêncio trouxe-me equilíbrio.
Lembrei-me de como, ainda ontem, me sentia a comparar a minha vida com a de outras pessoas. Como, nessa comparação, me afastava de mim e ia para um lugar de "menos".
E ali, na minha solitude de calmaria e silêncio, reencontrei-me.
E senti-me em paz.
Tão em paz que decidi faltar à aula de mentoria de grupo.
Escolhi preservar este silêncio.
A aula é gravada. Posso vê-la mais tarde, quando estiver disponível para a receber.
Ontem, porém, escolhi ficar neste silêncio.
Porque, por vezes, a presença dos outros inspira-me.
Mas, noutras, é na minha própria companhia que volto a encontrar-me.
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