Quarentena: dia 34
Sexta jantei sushi. Abençoado serviço de take away do restaurante onde habitualmente vou ao sushi.
Sádado foi dia de limpar e arrumar o "palácio". E também de andar de catalógo Ikea online numa mão e a fita métrica na outra. No carrinho de compras já constam alguns artigos... encomenda por submeter. Estamos em período de reflexão.
Domingo aproveitou-se o bom tempo e foi dia de churrasco com direito a caipirinha.
Vive-se dentro de portas, tentando trazer algum do mundo lá fora cá para dentro. Vai-se, assim, tentando fintar esta quarentena, este isolamento e distância social. Mas há sinais de cansaço. De desanimo também. Por aqui mantêm-se as regras de confinamento e lá fora parece que foi dada ordem de soltura, é só pessoas na rua, a passear ao sol, famílias de quatro elementos a irem para o supermercado, crianças sem máscara, encostam-se ao balcão da caixa, mãos, queixo, provavelmente boca (desabafo de uma pessoa amiga que trabalha num destes postos de trabalho e tem de ver coisas que custam a engolir quando se tem dois dedos de testa e um neurónio, no mínimo, a funcionar). Parece que as creches vão reabrir. Está tudo bem. As redes sociais cansam de tanto unicórnio e vidas de Barbie. Não imaginava que os portugueses viviam todos (quase) em casas com piscina, algumas com vista para o mar. Assim a quarentena até é um favor do universo para as pessoas gozarem mais as suas casas. E pululam padeiros e personal trainers. Toda a gente está exímia a fazer pão, bolos, petiscos vários. Isso e exercício físico. Tanto que nem vale a pena os ginásios voltarem a abrir portas. Está provado que não são precisos. Há quantidade absurda que me passa à frente dos olhos de exercício físico eu já tenho um six pack abdominal completo. Nas pestanas.
Desmotivo. Cumpro o meu horário de trabalho, que com reuniões quase diárias de 1h ou mais e em dias com muitas falhas de rede, acabo por esticar o dito horário para compensar na produtividade. Tenho dias que quando desligo o computador e penso que 20 minutinhos a fazer exercício seguindo um vídeo do Youtube até ajudaria a descomprimir, não fosse o cansaço ser muito, a cabeça gritar por sossego e mais depressa aterro um bocadinho no sofá antes de ir para o fogão, do que vou estender o tapete e pôr-me a malhar o corpinho que grita por descanso horizontal.
Sinto-me moída, dormente.
Uma amiga teve um ataque de pânico e crise de ansiedade. A falta de ar levou-a às urgências de um hospital privado que a pôs na rua e recusou-se atender. Foi ao público. Foi muito bem atendida. Está novamente em casa, sozinha, a tentar recuperar, com medicação SOS. Posso pegar no carro e ir lá ter com ela, tomar um café, dar-lhe um abraço e conversarmos cara a cara e não por vídeo chamada?
A parte invisível da quarentena, aquela que não é vistosa e bonita de publicar nas redes sociais. A solidão, o medo, as dificuldades financeiras, as preocupações, a tentativa vã e o esforço hercúleo de criar uma nova rotina e realidade e "fingir" que está tudo bem e vai ficar tudo bem. Estou cansada, posso?! Cansada das tretas otimistas. Cansada dos egoístas e estúpidos que põem em causa todo o sacrifício que outras pessoas estão a fazer para controlar o contágio. Cansada da falácia das redes sociais que, mesmo neste momento que vivemos, continua a mostrar um lado paradisíaco e idílico de uma vida em quarentena, em que estão todos muito pró ativos, muito bem emocionalmente (quem vê a enxurrada de figuras tristes no tik tok não diria que é gente sã de espírito)... de repente tudo faz e come pão, aquele inimigo da dieta e bem estar que até há bem pouco tempo atrás toda a gente era alérgica. Só que não. A covid curou a doença celíaca de milhares de pessoas. Milagre, milagre! Haja pão. E vinho. E muito fit e yoga e merdas, já vomito pelos olhos tantas dicas de treinos em casa. Biquíni só para 2021, ok?!
Cansaço. Íssimo íssimo íssimo cansaço.
Já somos duas. Daí ter postado um arco íris menos politicamente correcto no insta. Estamos é todos f*** da cabeça mas pronto vivam é as aparências. Incrível que no meio desta confusão toda a malta continua tão preocupada na caça aos likes . E vivam os postzinhos fofinhos e inspiradores.E o pão! Acho que isso desgasta psicologicamente ainda mais esta situacao toda.
ResponderEliminarPelo menos eu olho à volta e parece que toda a gente anda alegremente atarefada e Patati Patatá, e eu apenas tento controlar a minha sanidade mental, o que me ocupa quase o tempo todo...
Ass: a pequena estrunfina
Estamos fodidos
ResponderEliminarEu vi esse arco-íris enquanto tomava o pequeno almoço e agradeci não ser a única ovelha negra do rebanho brancó fofinho e coiso.
Sim, eu tenho de gerir horário de trabalho (e apesar de não ser fácil, agradeço poder estar a trabalhar que assim sempre me ocupa a cabeça e me ajuda a ter alguma organização nos dias), horário de vida pessoal e doméstica. E bato palminhas a quem ainda tem as crianças e a telescola e o diabo a sete para juntar.
Ouvi o podcast da Gorda e valeu-me a visão de normalidade insana que as criaturas comuns e mortais vivem, e não a que os criadores de conteúdos digitais, que vivem noutro universo, só pode, exibem no Instagram.
Boa sorte aí a manter a sanidade mental.
Pois...
ResponderEliminarEu vou no 2º ano de m**** consecutivo. Ainda há dias uma colega minha comentou que se me aguentar sem me passar da marmita tb este ano que posso dispensar as consultas de psiquiatria e de psicologia lol . Gerir isto com voltas de 180º à vida ao mm tempo é dose.
Depois disto será difícil contrariar os meus instintos assassinos cada vez que vir um c***** do arco íris....