Onde o Corpo Habita o Tempo
Vivemos grande parte do tempo em desfasamento. O corpo está num lugar, mas a mente vagueia em universos paralelos. Ora regressa ao que foi, ora antecipa o que ainda não aconteceu. Saltamos entre passado e futuro como quem atravessa pontes invisíveis, esquecendo-nos, muitas vezes, do único lugar onde a vida realmente acontece: o agora.
O corpo, esse, nunca sai daqui.
O corpo vive sempre no presente. Ele respira agora. O coração bate agora. A pele sente a temperatura agora. Mesmo quando estamos presos em memórias antigas ou em ansiedades futuras, é o corpo que continua aqui, ligado ao instante efémero do agora.
O corpo é a nossa âncora.
É nele que a vida acontece em tempo real.
É através do corpo que sentimos, que percebemos, que experienciamos. É no corpo que a vida acontece. Agora.
Tomar atenção ao corpo é regressar e ancorar no agora.
Quantas vezes o dia começa com a mente acelerada antes mesmo dos pés tocarem o chão? Quantas vezes comemos sem saborear, caminhamos sem sentir os pés, respiramos sem perceber que respiramos? Vivemos por hábito, por automatismo, por sobrevivência. E, nesse ritmo, perdemos-nos de nós. E a vida escapa-se entre o passado que foi e o futuro que poderá vir a ser.
Beber uma chávena de chá ou café pela manhã. E em vez de estar a revisar a agenda do dia, que tal sentir a chávena quente nas mãos? Cheirar o aroma que se liberta? Saborear, gole a gole, e sentir o liquido percorrer o nosso corpo até se alojar no estômago. Sentir o prazer de uma bebida quente pela manhã, como nos aquece o corpo. E conforta a alma.
Sentar, cinco minutos que seja, e simplesmente observar. Observar o movimento de pessoas. Ou a paisagem - árvores, flores, relva, casas, nuvens, o que seja que esteja à frente dos nossos olhos. Fechar os olhos e apurar o sentido do ouvir. Perceber os sons à nossa volta. E os cheiros. O cheiro da terra molhada da chuva. Ou a café acabado de fazer. A torradas. A pão acabado de cozer. Ou outro aroma que nos faça salivar.
Permitirmo-nos a vulnerabilidade de sentir o que nos rodeia com os nossos cinco sentidos. E estar conscientes das sensações que surgem no nosso corpo. O arrepio na pele. O palpitar do coração.
É no corpo que regressamos quando nos perdemos. Quando a mente corre demais, quando o coração pesa, quando a vida aperta. Voltar ao corpo é voltar a casa.
Um pé no chão. Um suspiro mais fundo. Um alongar de braços. Um bocejo sem pressa. Pequenos gestos que nos devolvem ao agora.
O corpo não guarda conceitos nem projeta futuros. Ele sente. Ele vive. Ele sabe quando estamos a fugir de nós e quando estamos, finalmente, a chegar.
Estar no aqui e agora não é uma meta distante, nem um estado permanente de calma. É um treino diário. Um regresso constante. Uma escolha que se faz muitas vezes ao dia: sair da cabeça e entrar no corpo.
E, no fim, talvez seja isso que significa estar vivo de verdade — habitar o instante com tudo o que ele traz. Sem fugir. Sem antecipar. Sem adiamentos.
Apenas aqui. Agora. Com o corpo como âncora.
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