Memórias dos sentidos: quando o corpo lembra
Na semana passada, na banca de frutas e legumes que fica no largo da vila, comprei umas tangerinas. Não seria nada de extraordinário, não fosse esta fruta da época despertar os meus sentidos e levar-me, num instante, até à infância. Até ao quintal da minha avó.
Mal olhei para a caixa com aquelas tangerinas, a memória da visão puxou-me para trás no tempo. Eram exatamente iguais às que eu colhia da tangerineira do quintal: a mesma cor viva, quase luminosa; o mesmo tamanho redondo e regular; as mesmas folhas verdes ainda presas ao caule, como se tivessem acabado de ser colhidas por cuidadosas e rugosas mãos.
Peguei numa e aproximei-a do nariz. O aroma era o mesmo - fresco, cítrico, doce, quase a prometer sol no frio do inverno. Fechei brevemente os olhos e vi-me, menina, debaixo dos ramos da árvore, em bicos de pés e braços esticados para colher a mais madura, a mais doce. A descascá-la, ali mesmo, deixando o perfume espalhar-se pelo ar e pelas minhas mãos. A saborear, gomo a gomo, aquela doçura simples que me parecia dos melhores sabores do mundo.
Peguei num saco e coloquei várias dentro. Escolhi as que ainda tinham folhas, como se fossem pequenos fragmentos daquela memória.
Ao chegar a casa, não resisti. Descasquei uma. Devagar. Sem apressar a memória. Gomo a gomo, de olhos fechados, deixei que o sabor me levasse de volta ao quintal da minha avó. Era exatamente igual - a mesma doçura, a mesma frescura, a mesma sensação da infância.
É curioso como o corpo guarda memórias. E como certas coisas - um cheiro, um sabor, uma textura - não evocam apenas essas memórias, mas fazem-nos regressar a elas por instantes, como se cruzássemos um qualquer portal do tempo. Como se o corpo guardasse arquivos secretos que se abrem quando menos esperamos.
E ali com uma tangerina na mão, percebi que algumas memórias não se perdem. Dormem. Esperam. E despertam ao primeiro sentido.
As tangerinas eram apenas tangerinas. E naquele dia foram também infância, casa, e tudo aquilo que a memória guarda em silêncio - sabores que alimentaram o corpo no passado e gravaram-se na alma até ao fim dos dias.
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