Sentir o Corpo: mergulhar nas camadas e flutuar na presença

Mergulhar no trauma é rasgar camadas. Tantas quantas foram sendo criadas para proteção, capa, armadura. Sobrevivência.

Mergulhar no trauma é permitirmo-nos ir a um espaço onde o tempo é uno, sem passado, presente ou futuro.

Mergulhar no trauma é calar a mente e deixar o corpo guiar-nos. Sentir tudo o que vier. Deixar vir. E só observar, sem julgar, sem contrariar. Sem fugir ou esconder.

O corpo agita-se. Treme. Arrepia. Contrai. A respiração pesa, encurta. As lágrimas soltam-se. A garganta aperta. 

Respirar fundo. Devagar. Expirar, como quem se esvazia. É a respiração consciente que nos mantém ligados. E seguros.

Quanto mais profundo nos deixamos ir, maior é a sensação extracorpórea. Como se pairássemos entre dimensões. E o tempo se dissolvesse.

Sentimos o corpo expandir-se e encolher-se ao mesmo tempo.

Tudo é apenas sensação. Apenas presença.

Inspira profundo. Expira e solta.

E então, numa brecha, surge o espaço entre os acontecimentos e a nossa respiração.

O trauma deixa de ser só dor. Torna-se mapa. Mapa de quem fomos, de quem somos, de quem podemos ser.

O corpo aprende a dialogar consigo próprio, sem pressa, sem resistência.

Mergulhar no trauma não é afogar-se. É aprender a flutuar dentro de nós mesmos. É reconhecer as camadas que nos protegeram, agradecer-lhes, e suavemente deixá-las ir.

No fim, quando voltamos à superfície, há calma. Há um silêncio nutrido pela consciência. Permanecemos no espaço silencioso entre respiração e presença. Mesmo que ainda reverbere um arrepio que percorre o corpo, e lágrimas ainda caiam. O trauma torna-se parte do nosso mapa interior.

As camadas rasgadas descansam. O corpo aprende a dançar com a própria memória. E no fio ténue entre dor e consciência, descobrimos que  podemos sentir-nos inteiros, vivos e presentes.

 

 

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