O tempo lá fora, o humor cá dentro
O dia acordou indeciso. Eu também.
Está sol, céu livre de nuvens carregadas. Porém vento frio.
Pouco depois chove. Vejo um arco-íris no percurso para o trabalho.
Sol, vento, de repente nuvens, chove, abre sol novamente.
De facto, os dias têm andado esquizofrénicos. Na semana passada apanhei chuva, no fim de semana mergulhei os pés no mar.
Um dia é inverno tempestuoso. No outro um sereno verão.
O tempo muda de dia para dia. E dias há em que passamos pelas estações todas num par de horas.
E estas oscilações andam sincronizadas com o meu humor.
Quase como o mistério de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, atrevo-me a indagar sobre o que afeta o quê? É o estado do tempo que afeta o meu humor? Ou será antes que o estado de espírito faz o clima?
Como manter o equilíbrio quando tudo parece tão incerto?
O desafio logo pela manhã é o dilema: o que vou vestir? Nada muito quente - não está assim tanto frio. Nada muito leve - olha o fresquinho e o nariz que já funga.
Visto roupa. Resposta sempre certeira do marido quando lhe pergunto: "o que visto?". Roupa.
Olho no espelho, uns dias mais confiante na escolha da indumentária. Outros nem tanto. Oscilo, como as nuvens.
Pequeno almoço. Café. Silêncio enquanto sinto o corpo a fazer download da alma.
Antes de sair olho para os gatos. Enroscados no sofá, entre mantas. Sacanas com sorte.
Percurso de carro em silêncio. Download ainda em curso. Permito-me o momento de quietude, exterior e interior, antes de picar ponto e entrar no modo funcional. Abasteço-me no silêncio. Desfruto da paisagem, com a devida atenção ao trânsito.
E aos cromos da estrada, que se julgam pilotos de F1 em pleno temporal, desejo-lhes boa viagem. (Com vontade de lhes mostrar o dedo do meio).
Durante o dia de trabalho, umas pitadas de humor. Daquele que alivia.
Rir ainda é a forma mais eficaz de sermos humanos. Perceber que, modo geral, andamos todos meio nublados, meio ensolarados, a tentar encontrar equilíbrio na incerteza do clima. Interno e externo. O riso une, permite dar espaço à loucura dos dias. O riso extravasa. Purga.
Depois de umas gargalhadas, ficamos mais leves. E voltamos a focar nas tarefas com um pouco mais de ânimo. E quiçá, na esperança de outro momento de leveza, entre piadas e risos, desses que unem.
Entre nuvens e brechas de sol, aprendo a navegar a maré. E, tão importante é seguir, como parar. Um pouco. Para ganhar fôlego. Para rir. De si. Dos outros. Dos insólitos destes dias esquizofrénicos.
E no final, talvez seja este o segredo: manter o humor como guarda-chuva, o coração em modo solar e confiar que o céu, com ou sem nuvens, aberto ou carregado, luminoso ou mergulhado em escuridão, será sempre o símbolo da vida - impermanente, bela e em constante transformação.
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