Metamorfose: entre o medo e a liberdade de ser
Sentir-me insuficiente.
Sentir-me não merecedora.
Sentir-me inadequada.
Sentir que não tenho lugar ou espaço. Para ser vista. Para ser ouvida. Para ser acolhida.
Ferida da rejeição. Ferida do abandono.
Fui a criança que se sentiu abandonada, sozinha, sem colo, sem proteção.
A criança que cedo desenvolveu os seus mecanismos de sobrevivência. Passar despercebida. Não se mostrar. Não chamar a atenção. Não dar trabalho. Não falar. Não chorar. Não rir.
Em permanente estado de alerta. Em vigília.
Atenta aos mais ínfimos detalhes... o tom de voz, o bater da porta, o som dos passos, as micro expressões.
A criança que esperava a pancada, não o afeto ou carinho.
A criança que acreditou que se fosse perfeita, então seria aceite. Amada.
E a inadequação aumentava em igual proporção ao sentimento de insuficiência.
Aprendi a calar-me para evitar críticas.
Aprendi a "andar em bicos de pés" para não provocar explosões de raiva.
Cheguei a acreditar que era uma maldição estar viva e só a morte seria a minha libertação.
Hoje sou a mulher que quer viver. VIVER.
Sou a mulher que descobriu que tem muita alegria e fogo dentro de si.
A mulher que percebeu o peso da armadura que carregou durante anos para se proteger.
A mulher que toma consciência do seu desejo profundo de ser vista depois de ter crescido e vivido encolhida, quase invisível, com medo de ser vista, como se disso dependesse a sua sobrevivência.
Hoje, sou a mulher que descobre a sua luz e apazigua as sombras que foram a sua "casa" e proteção.
Tem tanto de doloroso como de libertador.
O corpo ganha nova amplitude para se mover. Mais livre. Mais leve.
E, mesmo quando se encolhe e volta à sua zona segura, sinto agora uma confiança e força, antes insconscientes, para expandir novamente.
No corpo. E não só.
E neste movimento vou fluindo e ajustando-me a esta nova pele - sem armaduras nem couraças -, transmutando as minhas vulnerabilidades em força vital.
Rasgo as várias camadas de crenças, de traumas, e vou largando o tanto que carreguei e nunca foi meu.
Assim, renasço.
Em cada dia, novas oportunidades, velhos desafios.
Em cada dia, nós que desato para me libertar da carga emocional que me pesa e bloqueia.
Em cada dia, curando as minhas sombras com o amor que emana da minha própria luz.
Hoje compreendo que a liberdade não está em deixar de sentir medo, mas em permitir-me ser, mesmo com ele.
Ser inteira, imperfeita, viva.
E, nesse movimento, continuar a renascer — uma e outra vez — em direção à mulher que, finalmente, se autoriza a existir.
A cura não é um ponto de chegada, é um caminho que se percorre com amor e consciência.
Cada passo, mesmo os mais lentos, é um retorno a mim mesma.
Entre o medo e a liberdade de ser, aprendo que a vida acontece no espaço que crio dentro de mim para acolher-me, exatamente como sou.
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