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Há aniversários que se celebram em silêncio. Há datas que nos ficam marcadas para a vida e são lembradas e sentidas em silêncio. Profundo recolhimento. Nesses dias apetece colo. Consolo. Um abraço. Só que o acontecimento que marca a data em apreço é muito desconfortável. Para quem o recorda. Para os outros.


Hoje, dia 4 de agosto, somam-se 5 anos do funeral do meu pai. Ontem, o dia para sempre registado na certidão de óbito.


Ninguém me vai dizer: parabéns! Não é esse tipo de aniversário. O que dizer? Se eu quisesse palavras ocas, publicava uma qualquer homenagem nas redes sociais e haveriam alguns comentários, ou emojis tristes ou de coragem, ou coraçõezinhos brancos, pretos, quebrados ou com ligadura, para aqueles que não saberiam o que escrever, mas quereriam deixar um qualquer sinal de apoio solidário.


Poupei-me a isso. A mim e aos outros. 


A minha boa memória nestes dias é um desafio. Um suceder de recordações, de detalhes, como se passasse a bobina de um filme na minha cabeça. Lembrar do som do telefone quando tocou. Da minha hesitação em atender, como se, antes de ouvir o inevitável, já estivesse em negação. Como vivi horas numa torrente tomada de decisões, porque não havia mais ninguém para as tomar senão eu, a única herdeira. Como me senti empurrada para uma linha da frente onde nunca estivera, e tive de me manter de pé. Como blindei a dor que me rasgava as entranhas com o pragmatismo que toda a burocracia exigia. Lembro-me de não sentir fome. Nem sono. Nem cansaço. Na verdade, estava apática. Alheada de uma realidade crua. Anestesiada. As lágrimas retidas algures, sem encontrarem o caminho de saída. Um grito preso na garganta. 


Cinco anos. Outra vida. Tantas vidas nestes 5 anos. Uma mão cheia. A morte que me empurrou para caminhos sem retorno. O luto que foi mote para a minha maior transformação e metamorfose. 


Escrevi ao meu pai ontem, no meu caderno. Não fui ao cemitério. Não "encomendei" uma missa. Não assinalei a data nas redes sociais. Não comentei com ninguém o dia que era para mim (só com uma amiga, pois partilhamos ano, mês e alguns dias de diferença da perda de alguém que significa tanto, eu o pai, ela a irmã). Escrevi ao meu pai. As palavras que nunca lhe disse, e a que mais lamento: amo-te. Também não a ouvi. Reconcilio-me com isso em terapia. 


Há datas que celebro em silêncio. E uma parte de mim é a criança que perdeu o pai e quer colo. 

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