O regresso

Chega aquela segunda-feira que assinala o regresso ao trabalho (irei ponderar em marcações futuras de férias regressar a uma sexta). Pessoa sai de casa leve, com aquela aura de quem descansou e carregou baterias. A bater palminhas por dentro a pensar que é um mês e repete a dose de férias. 


E eis que chega ao seu posto de trabalho e... a cadeira? 


Sim, imaginem-se a chegar e a depararem-se com a secretária onde se sentam para trabalhar e não há cadeira. E ninguém sabe da cadeira. E ninguém se apercebeu. Ah se calhar foi necessária para uma reunião na sala ao lado. Tudo bem, levam emprestada, devolvem à procedência. Nada. Não havia sinais da cadeira na sala de reuniões, e sem evidências, também não se pode acusar que algum colega se tivesse apropriado da dita.


Situação constrangedora. Desconfortável. Uma situação de merda. 


Fui buscar uma ao espaço de refeições, uma cadeira nada adequada a uma secretária, tão pouco a estar um dia inteiro sentada. Mas era isso ou era ajoelhar-me em frente da secretária. 


Hoje o mistério foi desvendado. A minha cadeira foi dada pela própria senhora diretora do serviço a um colega novo que entrou ao serviço há uma semana, enquanto eu estava de férias.


A mesma senhora diretora que tomou decisões com impacto direto em mim e no meu trabalho, enquanto eu estive de férias, e sem que me fosse dado qualquer conhecimento. Decisões como retirar acessos, os quais foi ela própria que há uns meses decidiu atribuir-me, quando me retirou das funções e cargo para o qual concorri e assinei contrato, para colocar no meu lugar uma das suas amiguinhas. Agora retira-me acessos, retira-me também funções (para as quais, curiosamente, recentemente tive formação para essas mesmas funções) e atribui-as a quem? À amiguinha.


Situação de merda. Passei o dia tensa, stressada, a segurar a raiva que me revolvia as entranhas. A crescente sensação de estar a ser alvo de assédio moral para que seja eu a sair do serviço e entrar em mobilidade interna (convite pouco subtil que me estendeu poucos dias antes de eu vir de férias). 


Mas foda-se, não é precisamente ela que está de saída? Qual é a ideia? Deixar as amiguinhas protegidas, sem ninguém no serviço que possa fazer sombra? Serei assim uma ameaça tão grande a estes grandes egos, de competências frágeis?


Estou sossegada. Hoje recuperei a cadeira, estou de nariz e olhos postos no computador. Phones nos ouvidos. Novamente fechada na minha armadura, com as defesas levantadas. Cumpro as minhas tarefas o melhor que sei e posso. Chega a hora e vou à minha vida.


Se é um ambiente saudável? Não. É o que é. E se me sinto atacada ou com um alvo nas costas, é legítimo que me queira defender e proteger. 


Que belíssimo regresso ao trabalho. Só que não! 


Há uma hipocrisia vestida de empatia que me cerca e me enjoa. 

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