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Hoje a tristeza sentou-se junto de mim. Pegou-me na mão. E deu-me colo para descansar e chorar. 


Evitei as redes sociais. Todo o rol de homenagens, declarações de amor profundo aos pais. 


Seria simples ficar-me só pelo: o meu pai já faleceu, não tenho propriamente quem felicitar pelo seu dia. 


Descascando as camadas da minha cebola emocional, não há memórias prazerosas de dias do pai quando estava vivo. Os anos da infância ele não ligava nenhuma às lembranças feitas na escola, mais tarde também não ligava nenhuma às prendinhas que oferecia. Até ao dia em que, deliberadamente, atirou uma ao chão e partiu-se. Acabou-se o dia do pai para mim naquele dia. Tornou-se "fácil" quando saiu de casa. Coração que não vê, coração que não sente.


Habita dentro da mulher que sou a criança que fui. É nessa criança que está a tristeza pela falta de afeto. E eu, agora, dou-me o colo que desejava na velha infância. 


Não consigo é também dar colo à mulher que deseja tornar-se mãe, e hoje sente a tristeza de (ainda) não poder felicitar o pai que escolheu para dar continuidade à vida. 


Vou só ficar aqui, um pouco mais, de mãos dadas com a tristeza, a descansar no seu colo, aliviando-me das lágrimas que me inundam por dentro.


E depois? Depois respiro fundo. Levanto-me e abraço a primavera que chega de mansinho para nos lembrar que, "para lá do inverno" há vida, há esperança, há caminhos onde houver amor. 


 

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