Ir

Recordo uma versão de mim anterior, do passado. Aquela versão de mim que acreditava não merecer que coisas extraordinárias lhe acontecessem. Que não era boa o suficiente, que haveria sempre alguém melhor, mais capaz, mais inteligente e eficiente e tudo o que eu não conseguiria alcançar ou ser. Aquela versão de mim que tinha medo de sair da sua zona de conforto, porque arriscar o desconhecido era terreno demasiado árido para as minhas parcas capacidades. 


E assim vivia eu, numa carapaça que me servia de proteção e de esconderijo. Até que a vida aconteceu. E a morte. 



"Nunca acreditamos no tamanho da nossa força, até que a vida nos obrigue a ser fortes."



 A versão de mim após iniciar terapia tem sido uma constante construção e descoberta. Muito adultecer (aprender, crescer, amadurecer).


A versão de mim hoje ainda tem os seus medos, ainda tem as suas inseguranças, ainda tem os seus dias em que se acha insuficiente. Só que agora esses medos e inseguranças não me bloqueiam, não me fazem ficar escondida debaixo de uma carapaça. Hoje esses medos e inseguranças são a força que me leva para a frente, para caminhar em direção ao desconforto, ao desconhecido, que me levam mais além dos limites que me impunha. A carapaça pode dar-me a sensação de segurança ou proteção. Mas não me leva a lado nenhum. Fico ali, numa existência amorfa, escondida de todos, de mim. 


Ao conhecer-me, ao aceitar-me plena, como sou, ao aprender a amar-me e a valorizar-me, já não é debaixo da carapaça que quero estar. Quero andar, sentir o vento a emaranhar-me os cabelos, quero descobrir novos caminhos, quero encontrar várias possibilidades, quero viver e sentir novas experiências e emoções. 


Percebi que não sou eu que sou insuficiente ou não mereço que me aconteçam coisas extraordinárias, que há oportunidades que também podem surgir no meu caminho, e não só aos outros. 


Há uns meses uma dessas oportunidades, que achava que só aconteciam aos outros, bateu-me à porta. Sussurrou-me. E não tive medo. Senti um impulso dentro de mim para ir. Permitir-me esse salto de fé. Acreditar que se essa oportunidade me surgia, eu sou capaz e mais do que suficiente para tomar conta. 


Alguns meses se passaram até se poder formalizar, e nesse compasso de espera, sim, tive os meus momentos de ansiedade, dúvidas, o síndroma do impostor a ressurgir e a deitar-me abaixo. 


Enfim, o primeiro passo formal está concretizado. Faltará algum tempo, pouco ou muito, para a concretização final. Está em movimento. Vai acontecer. E eu olho com carinho para a "velha" versão de mim. Digo-lhe que fora da carapaça o mundo é vasto e belo. E mesmo com medos e inseguranças, ir é o verbo que mais importa. 

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