É barriga, senhor, é barriga

Ontem, na pausa do café de manhã, um colega de trabalho pergunta-me, de forma genuinamente simpática e interessada:


- Então, está tudo a correr bem? 


Aquela expressão, com as sobrancelhas erguidas, de quem não está de todo a perceber a pergunta.


- Se está tudo bem com a barriguinha?


- Oi? - som de grilos na minha cabeça.


- Com a gravidez! - exclama ele como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.


- Quem eu? Eu não estou grávida.


- Então mas... ai... então foi o teu nome, disseram-me que eras tu que estavas de bebé. 


...


...


...


Não é a primeira vez que passo por situações deste género. E ainda assim, continuo a ser surpreendida. E há ali um momento em que me sinto uma merda, uma gorda que parece grávida, mas não, é "só" gordura. Ou gases. Ou intestinos inflamados. Ou inchaço de período menstrual. Ou outra merda qualquer, não interessa. 


É este o ponto, não é? É a constante observação e julgamento sobre o corpo da mulher. Emagreceu, 'tá doente, ou parece mais velha, ficou feia. Engordou, 'tá grávida, ou "era tão jeitosinha", ou discorrem teorias da trampa sobre o peso a mais, sempre com o olhar de julgamento e condenação. 


E se estivesse grávida? Se ainda não assumi publicamente, o que é que interessa? Querem fazer o enxoval, é? Ou organizar o baby shower? Ou oferecer um ano de creche? 


E se, na verdade, estiver há mais de dois anos a tentar engravidar e nada, o que parece que essa pergunta me faz sentir?


Deixem-me em paz. Porque agora sou eu que tenho de cuidar dos cacos do meu vasinho da autoestima. 


 


Mais tarde, a remoer este episódio, recorro à minha costela de humor negro para lidar com o estrago emocional. Relativizar. E anotei mentalmente mais uma possível resposta a dar quando me vir confrontada com tal questão: Oh, a sério? Tou grávida e não me avisaram? Será que o email foi para o SPAM?


 


 

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