76/365


Foi quando nos perdemos um do outro, que nos reencontrámos.


Foi quando largámos as nossas mãos, quando saíste pela porta, sem saber se haveria regresso, e eu fiquei no vazio da casa, que senti o impacto que me estilhaçou. O caminho estendia-se sob os meus pés, agora sozinha. E eu precisava saber que conseguia continuar sem ti, sem a tua mão, sem o teu abraço, sem a tua presença. O teu arrependimento magoava-me tanto como tudo o resto. Afinal, arrependimento depois das vidas destruídas é um pouco tarde, não? A dor sobrepunha-se a tudo, e eu queria sentir raiva e odiar-te. 


Lambi as feridas, ergui-me, cambaleei. Acreditei. Em mim. Em mim. Pois era o que me restava: eu própria.


Foi quando me perdeste, que me deste valor. 


A porta por onde saíste voltou a abrir-se para entrares. As nossas mãos encontraram-se com novo ímpeto.


E o meu medo.


Curar a ferida ao lado da pessoa que a provocou é um desafio quase impossível. E, sim, por momentos duvidei. Por momentos pensei que teria sido melhor manter a porta fechada. Por momentos imaginei que tinha sido essa a minha escolha e como estaria a minha vida, cada vez mais distante de ti. 


E a raiva?


E o amor profundamente ferido?


Dentro do teu abraço vou curando.

Comentários