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Era uma tarde quente de início de setembro. Sábado. A praia tinha a agitação de um verão que se estendia pós férias. Ela chegou sozinha. Arrancou para a praia e esperou lá pela amiga que se ofereceu para companhia (e não só). Percorreu o areal absorta, desligada de todo o burburinho alegre que ecoava pela praia. Parou perto da água. Deixou cair o saco, despiu o vestido e entrou na água, sem qualquer hesitação. A dor era por demais profunda e procurava, a qualquer custo, anestesiá-la. Um mergulho, depois outro, e assim foi mergulhando, cansando o corpo e misturando as lágrimas com a água salgada. 


Voltou para o sítio onde havia deixado o saco caído. Estendeu a toalha e sentou-se, frente à imensidão do mar, contemplando o vazio que se abrira na sua vida. Colocou os phones para se isolar das conversas intercaladas com risos. A alegria que pulsava à sua volta fazia ricochete na profunda solidão que sentia. Ligou música no telemóvel e ouviu...


Eu já fui assimTão focado em mimSem querer conselhos de ninguém

Fiz das nuvens larSaltei sem olharCrendo que no fim sairia tudo bem

Fiz bandeira de um velho ditadoMelhor só que mal acompanhadoNem pensava em apoiar os pés no chãoOlá, solidãoOlá, solidão

Eu tinha um lugar com vista para o marQue ninguém chegou a conhecerVoei rente ao céuTudo era só meuE o que ainda não era iria ser

Olho em volta agora estou sozinhoNão liguei às placas do caminhoNem parei pra perguntar a direção

Olá, solidãoOlá, solidãoOlá, solidãoOlá, solidão

Fiz bandeira de um velho ditadoMelhor só que mal acompanhadoNem pensava em apoiar os pés no chão

Olho em volta agora estou sozinhoNão liguei às placas no caminhoNem parei pra perguntar a direção

Olá, solidãoOlá, solidãoOlá, solidãoOlá, solidão

Eu já fui assimTão focado em mimSem querer conselhos de ninguém

 

... e ouviu, e ouviu, em loop repetido como mantra que embalava a dor que a submergia. 

De olhos perdidos na imensidão do mar, de coração estilhaçado pairando num abismo, simplesmente chorou na sua solidão.

 

Meses mais tarde, teve a oportunidade de resignificar a música que foi embalo e grito de dor. No concerto da banda, ao vivo num estádio, no meio de uma multidão, ouviu novamente aquela letra, já não sozinha, mas de mão dada. O coração ia-se curando, do vazio veio a esperança, do abismo a persistência no caminho que sabia querer trilhar. 

E agora, sempre que a ouve, recorda-se daquela tarde quente de início de setembro, de como os fins trazem (re)começos. De como de grandes e profundas dores vêm forças que se desconhecia ter. 

 

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