Quarentena: dia 9

Ontem saí mais tarde do trabalho. Já não tinha vontade ou energia para ir exercitar o esqueleto de maneiras que me entreguei à ronha e à preguiça, também mereço.


Verdade que uma pessoa agora com tantas aulas online, partilhadas nas redes sociais, até fica com dores nos "glúteos da vista" (autoria da Gorda, a quem desde já agradeço pelo bom humor que tanto me tem feito rir... será que ajuda a ter um six pack abdominal no verão? Troco já de treinadora...).


Além do exercício físico, é a partilha de receitas. Agora todos, além de serem muito fits e fazerem bué exercício físico em vez de sentar o cu no sofá, são também todos cozinheiros de mão cheia. Eu tenho é saudades de ver uma receita de um bolo que leve farinha. Farinha, daquela normal, T55 com ou sem fermento. Não, ou é farinha de amêndoa, ou de coco, ou de aveia, ou de arroz, ou do diabo a sete... precisaria sair de casa para ir ao hipermercado que tivesse essas modernices da cozinha do paleolítico, e ainda calhava de ser o hipermercado que fica mais longe da minha área de residência, de maneiras que a GNR mandava-me recambiada para casa sem farinha de amêndoa e stevia ou agave para fazer um bolo de iogurte... sem lactose, claro está.


Estou seriamente a pensar espalhar uns sinais de trânsito pela casa. Assim teria a real perceção de sair do trabalho, ter semáforos e rotundas pelo percurso, refilar com os cromos que não sabem o que é um pisca (essa merda deve ser um extra que não vem de origem nos automóveis) e obviamente não o usam para indicar a sua saída da rotunda.


Continuo a receber as newsletters que anunciam as sandálias que não posso perder este verão. Parece-me que está na hora de eliminar as newsletters de uma vez. Há uns tempos fiz uma seleção e passei só a receber das marcas que me interessam e consumo. Mas neste momento é só parvo, mesmo sem abrir, ler o assunto e ficar com vontade de espetar um prego ferrugento nos olhos. Mas depois teria de ir para as urgências e não há álcool para desinfetar.


Ontem uma amiga, que está a trabalhar a partir de casa e que faz, entre outras coisas, atendimento telefónico ao cliente, partilhou comigo um insulto de um cliente que, não deixando de ser um insulto reles e merdoso, ganha pela capacidade de contextualização nesta (ir)realidade que estamos a viver: "vá para o hipermercado ler rótulos de produtos a ver se o vírus a apanha". Uma pessoa tem de se rir com tamanha estupidez. E esperar que a lei do retorno do universo funcione em dobro. Ou triplo.


Por aqui entra-se no nono dia de quarentena com uma neura filha da meretriz.


Vou almoçar a ver se isto me passa.


 

Comentários

  1. Ou eu tenho muita sorte ou os meus clientes são muito polidos porque ao fim deste tempo todo ainda nenhum me soltou os cães, e mesmo sabendo que estou a trabalhar a partir de casa perguntam sempre se não estão a incomodar... não, não estão e espero que também não se incomodem de ouvir as gatas a miar ou os cães a ladrar aos pássaros 
    E quanto a receitas com tudo a que tens direito, já sabes, vai espreitar a minha Belita que é capaz de haver alguma à tua medida! 

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  2. O Belita é visita obrigatória diariamente. Há anos

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