A solidão que dói

Estava de férias quando, abalroada pela notícia da minha amiga, decidi agir em vez de permanecer no “eu gostava, um dia eu vou…”. Procurei informações, liguei, e soube que afinal eu não precisava deslocar-me a outra cidade para me inscrever como dadora de medula. No mesmo dia tornei-me dadora de sangue e de medula. Fiz testes, preenchi questionários, tive uma consulta médica, fui logo para a doação de sangue, onde me deu um fanico (tensão baixa é assim), e saí de lá com um orgulho (e braço dorido) de dever cumprido.


Mas quase fui barrada logo na primeira fase de seleção. No questionário para dador de medula, mesmo no fim, eram solicitados dois contactos de emergência. Preenchi o primeiro com os dados do Gandhe. Deixei o segundo em branco, achando que era opcional. Só que não, e só aceitavam a minha humilde candidatura com preenchimento de um segundo contacto.


Para a grande maioria das pessoas isto é simples e corriqueiro, até devem sobrar opções de preenchimento. Há pai, mãe, irmãos, tios, primos, and so on... mas eu bloqueei, completamente congelada na minha consciente (e dolorosa) solidão. Não há mãe, não há pai, não há irmãos, os primos estão longe, distantes, em vidas tão afastadas da minha, os tios idem… quem me sobra?


Gandhe sugeriu pôr os dados da mãe dele. Que remédio, ou engolia esse orgulho e dava os dados da sogra como meu segundo contacto de emergência, ou vinha-me embora sem sequer ter tentado voluntariar-me para o banco de dadores.


Vim para casa, meia combalida do que se passou durante a doação de sangue, e totalmente aturdida com um vazio que se abriu dentro do meu peito.


À noite, já mais recuperada, entrei em contacto com uma das minhas amigas mais próximas, que ironicamente, vive noutra cidade, expliquei-lhe o que tinha acontecido e perguntei se podia, caso voltasse a confrontar-me com uma situação destas, dar os dados dela. Prontamente me disse que sim, que era uma honra. E agradeci tanto quanto pude, engolindo esta solidão amarga de não ter ninguém na vida.


Ontem voltei a sentir este amargo. Num momento de grande dor e angústia, quis falar e não tinha com quem. Corri mentalmente a lista dos amigos com quem me sentiria à vontade para procurar colo, e felizmente ainda são alguns. Detive-me, no entanto, por não querer incomodar. Têm a sua vida, alguns com filhos pequenos, pouco passava da hora de jantar, estariam ocupados a jantar com a família, a arrumar a cozinha, a preparar as coisas para o dia seguinte, eventualmente a descansar ou a aproveitar para ver uma série, um filme, para namorar ou ler uma história ao filho.


Fiquei sozinha, enrolada no meu casulo, quebrando o silêncio com as soluçantes lágrimas que caíam desamparadas sobre o peito vazio.


Eu sei, tenho este feitio orgulhoso de me fazer de forte e independente. Estupidamente consciente das carências afetivas e emocionais que fazem parte do meu ADN, da minha herança genética e educacional, criei esta fortaleza em meu redor. Mas caramba, é uma muralha de papel. E que não fosse, até os fortes caem e precisam de uma mão estendida, de um ombro que ampare a cabeça que tomba, de um abraço que conforte, de uma palavra que acalme a angústia.


 

Comentários

  1. lamento, Pandora que estejas a sentir essa angústia!
    A minha vida também, não foi um mar de rosas, mas tens que saber que apesar de parecermos uma muralha, somos mais sensíveis que as outras pessoas e todos nós ás vezes precisamos de uma mão amiga e é nesse altura que vemos quem são os amigos verdadeiros.

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  2. Lamento que te sintas assim...Mas arrisca falar com os teus amigos. Talvez alguns também serão tão orgulhosos como tu - não leves a mal - e também estão a precisar de uma voz amiga 

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  3. Minha querida, como te compreendo! Podes dar o meu contacto sempre que precisares! E mesmo longe sempre que precisares de um ombro, podes contar com o meu! Beijinhos grandes!

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  4. Comovi-me imenso com o teu desabafo. Senti na pele cada palavra tua...
    Um forte abraço com amizade.

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  5. É como dizes. Às vezes, pomo-nos a pesar os prós e os contras de contactar quem conhecemos para um desabafo ou uma bica. Ganham sempre os contras, não é? 
    Eu cá acho que o maior problema é não querermos mostrar vulnerabilidade. Deixar a zona de conforto e admitir que precisamos de um amigo naquele momento não é nada fácil. Se, por um acaso do destino, nos telefonarem no preciso momento em que nos estamos a lamentar da nossa solidão, somos ainda bem capazes de dizer "Tá tudo ótimo, e contigo?". E a verdade é que nem sabemos se aqueles que estão "

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  6. Na realidade é como tu dizes, quando o fiz não me lembro sequer desse ponto porque talvez para mim foi banal e presumivelmente em contactos devo ter posto os meus pais ou o meu irmão.
    Mas na verdade lamento o que sentiste mas agradeço a tua partilha, só porque há visões sempre diferentes de um acto e nunca, nunca sabemos a história de vida de cada um para podermos imaginar o porquê de reagirmos de formas diferentes à mesma situação.
    A única solidão que aí possa ter sentido confesso é mesmo de ter a consciência que podíamos ser muitos mais a fazê-lo mas muitos não estão predispostos a tal.

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  7. Nem imaginas o quanto me identifiquei. Sou igual a ti. No meu caso, a segunda opção acabaria mesmo por ser um dos irmãos que ainda distantes e sem falar , lá teria de ser ... Mas eu já me habituei. Há anos que é assim. Tampouco incomodo as amigas. Já possuem todas as suas vidas feitas. Também não possuo namorado, ou seja, é mesmo a solidão no seu estado mais puro . Tive de deixar a um padre carimbado e devidamente assinado o meu desejo do corpo ser doado a ciência caso faleça e só tenho 38 anos ... É nestas alturas que olhamos para trás e nos perguntamos : " mas o que é que aconteceu a minha vida ? " Todavia, se precisares de falar estou aqui ! Gosto de ajudar ... Apesar da minha solidão ! 

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  8. Cara Pandora,
    cheguei até aqui pelo destaque (parabéns! ) sem pensar que iria receber um murro no estômago pelo que li. Nunca passei pela mesma situação e nem sequer consigo imaginar tudo o que sentiu, no entanto, tenho de lhe dizer que é uma corajosa. Identifico-me com o facto de ser ogulhosa e também a mim me custa "engolir" o orgulho em certas siatuações. Mas fez muito bem! Eu penso que os amigos são a familia que escolhemos; eu nunca tenho medo de incomodar os meus amigos porque sei que eles estão lá para mim, assim como eu estarei lá sempre para eles.


    Beijinho enorme!

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  9. imagina o que é não ter mesmo alguém :)

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  10. Obrigada pelas palavras de carinho e apoio. Não vim à procura delas com este meu desabafo num dia particularmente negro, mas ajudaram a aquietar a profunda agitação.

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  11. Eu sei disso. Muitas vezes achamos que sabemos o que se passa do outro lado. Achamos que ou já têm problemas de sobra para ainda levar com os nossos, ou estão tranquilos e felizes e não precisam que uma tempestade lhes entre telefone adentro. Eu sei que nas minhas crises a tendência é isolar-me. Em tempos procurei e levei com a porta na cara. Fez-me ser mais cuidadosa nas horas em que preciso. Mas também já vivi o oposto. Vindo de quem não esperava de todo, recebi ajuda, apoio e carinho. Obrigada pelas palavras. 

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  12. Não, nos conhecemos, mas eu tenho carinho por ti e sei que tal como eu já passas-te muito na vida!

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  13. Não deixa de ser irónico num desabafo sobre isto de me sentir só ter um comentário anónimo e conseguir pensar em três ou quatro pessoas (amigas) que o poderão ter deixado.
    Obrigada, do fundo do coração, obrigada. 

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  14. Vulnerabilidade. Em cheio. Por norma isolo-me nestes momentos. Por muito que custe, é como se me protegesse assim de desilusões num momento em que me sinto já tão frágil. Sim, já levei baldes de água fria quando arrisquei a procurar uma mão que pensava ser amiga e levei com uma total falta de interesse. Também já tive o reverso. Ver uma mão estendida de quem menos esperaria. Mas é o que dói que deixa marcas, não é? Aquele comentário que uma pessoa amiga disse de "eu até sabia que estavas na merda, mas não me apeteceu atender-te o telefone" que fica a fazer eco na memória emocional. É isso que bate quando passo por um mau bocado e me faz retrair quando pego no telefone à procura de "alguém" com quem falar. Dizes, e muito bem, é arriscar. E eu, quando estou profundamente ferida, não arrisco. Para não ficar vulnerável a mais uma pancada.
     

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  15. Obrigada pela partilha, pelas palavras, pela mão que, só quem entende esta dor, sabe estender de forma tão altruísta e desprendida. Obrigada.  

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  16. Mal podia eu imaginar que um texto nascido de um desesperado desabafo pudesse se destaque. Não mereço parabéns. Tão pouco consigo entender o porquê deste destaque. Agradeço as palavras. 

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  17. Acredite, não é difícil imaginar. Já me senti assim. Já estive assim, sem ninguém. Numa idade demasiado jovem para me sentir assim. Numa fase em que, olhando para trás, me surpreendo em ter chegado onde cheguei.  

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  18. Somos as estórias que vivemos, as emoções que sentimos, as memórias que guardamos. Somos reflexo de tudo isso. E perante situações iguais, há reações tão díspares. 

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  19. Óh Pandora, que vida! Tenho uma amiga do coração que já não tem os filhos e o marido tb. faleceu. Tem 70 e tal anos e também está sózinha! Faz voluntariado em algumas instituições, diz que preenche este vazio a ajudar os outros. 
    Não exite em procurar uma amiga quando precisar. As amigas são para o bom e para o mau. Desabafe no blog, nós estamos aqui para acarinhá-la! Abraçinho!🌻

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  20. Li e o texto, as palavras, a história, os sentimentos e emoções tocaram-me. Eu sou uma pessoa solitária, por opção e também porque quase não me identifico com a maioria das pessoas. Esta solitude não me dói porque sei que estar rodeada de pessoas que nada me dizem, isso sim, seria um sacrifício imenso.
    Portanto, dizer-te apenas que, não estás sozinha :)

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  21. Pandora, como compreendo as tuas palavras, a tua solidão e a tua "muralha de papel".

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  22. Procura sempre uma voz. Independentemente do problema.

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  23. também sinto esse vazio no peito.... chega a tornar-se dor fisica e estou com imensa dificuldade ultrapassar isto. uma angustia enorme que não tem explicação... um beijinho para ti e coragem para nós

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