Autocensura

Escrevi um longo post, literalmente a vomitar os dramas que me invadiram a vida e me derrubaram a paz nas últimas semanas. Escrevi num frenesim de quem quer expurgar as preocupações, as ansiedades e os medos. De quem quer, desesperadamente, voltar a ter controlo sobre a vida, acreditar que tudo vai correr bem e resolver-se. Que entre mortos e feridos, hei-de escapar. Que os planos e projetos que desenhámos no arranque do novo ano não estão, de todo, perdidos. Ainda que os tenhamos de reformular, refazer, redefinir, sim é possível lutar por eles. 


Mas está ali, guardado nos rascunhos, sem coragem de o publicar. Já desabafei inúmeras vezes sobre estórias dos meus dias, das minhas tristezas e preocupações, das minhas dores e angústias. Mas são as minhas estórias, se publiquei publicamente, foi sobre mim e foi decisão minha expor-me. Desta vez não sou a protagonista. Sou um dano colateral, e por isso está a custar publicar algo que envolve outras pessoas, ainda que sob anonimato, ainda que sem nomes, nem iniciais, nem nada que as possa identificar. E é absolutamente irónico eu ter esta espécie de respeito por quem não teve uma gotinha dele por mim (nós). Nem respeito, nem consideração nem merda nenhuma. 


A tensão tem aumentado. Começo a soltar faíscas, sabendo que não tarda o rastilho será aceso e vai explodir. Não consigo prever com exatidão os danos. As consequências. Mas vou fazendo uma ideia, daquilo que conheço dos principais intervenientes, daquilo que já senti na pele. E este ter de esperar e não poder fazer nada, este tentar precaver-me e salvaguardar-me antecipando as prováveis reações e consequências está a dar comigo em doida. 


Vai tudo correr bem. Acreditar e confiar. Eu quero, muito. Mas está difícil. 


Entretanto, sinto-me um pouco mais leve por ter exorcizado pela escrita o que me angustia. Mas por enquanto ficará ali, nos rascunhos, fechado a sete chaves, sem saber se alguma vez será publicado.


 

Comentários

  1. Tenho alguns assim. Queria apenas comentar que por vezes temos que escrever, para conseguirmos reescrever a narrativa. Para a atenuar, para nos acalmar ou, pelo inverso, para nos organizar a raiva demolidora que nos vai dentro. Ninguém precisa de o ler, mas precisamos de o escrever. Espero que consigas respirar no que me parece ser um turbilhão de emoções difícil de parar. Um beijinho

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  2. Tal e qual. Nestes momentos em que a escrita é terapia lembro-me de Vergílio Ferreira que tanto dissertou sobre a escrita ser um organizador do caos, da existência, das ideias, dos sentidos. Se Descartes deixou a máxima "penso, logo existo", Vergílio Ferreira foi mais um "escrevo, logo existo". E ter escrito, para mim, só para mim, foi um ato de purgar os demónios que por aqui andam. 
    Obrigada pelas palavras. Embalam um pouco este turbilhão de emoções (e preocupações). 

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  3. Ao escrever, sabendo como escreves, de certeza que já ajudou! 
    Já te libertaste, um pouco, com segurança, no teu espaço.


    E sim, nós sabemos que custa, que não parece, que bufamos e esperneamos.
    Mas vai dar, vai a tempo, vão conseguir.
    Sim. Porque és tu. Forte, lutadora, única, que me inspira e para quem olho quando estou em baixo - mesmo quando olho, caladinha, como o tenho feito ,)


    Beijo enorme. Com saudades.
    Um abraço dos nossos, meu amor*

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  4. Ora essa, não tens de quê! Espero que hoje já te sintas mais em "ordem"!

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  5. Mais aliviada, sim. Ordem, nem por isso. 
    É complicado. Até porque a situação é extremamente delicada, envolve outras pessoas e eu sofrerei os danos colaterais das decisões que os principais intervenientes irão tomar. Só vão até onde eu deixar, eu sei. Mas... é muito delicado... aiiiiii era publicar o texto e perceberias o drama. 

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  6. Mais aliviada, leve, talvez. Mas nem por isso menos caótica. 
    E não sei se terei forças para suportar o pior dos cenários que se adivinham. Não sei. 
    Obrigada minha doce princesa. Pelas palavras, pelo apoio, acima de tudo pelo carinho.

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