Sapatos de Rebuçado
Na semana passada acabei o segundo livro da saga Chocolate, de Joanne Harris. Gosto da autora, gosto da escrita, da envolvência que cria entre a realidade e a magia, misturando os elementos de forma tão natural, que as suas histórias não chegam ao fantasioso, mas saltitam entre um quotidiano comum, corriqueiro, banal, e uma pontinha de misticismo que lhe dá algum tempero. Gostei muito do livro Chocolate, e como há uns tempos revi o filme, fiquei mesmo com vontade de ler a continuação da saga, saber como estaria Vianne e Anouk.
E ei-las, quatro anos depois, nos arredores de Paris, numa existência discreta e tão normal quanto possível. É o que Vianne deseja, para poder proteger as filhas: uma existência normal e comum. Por isso abdica das suas artes de feiticeira e toma uma existência sossegada e reservada. Anouk cresceu e é uma pré adolescente que começa a questionar as atitudes da mãe, principalmente com a sua mudança drástica, e agora há a pequena Rosette, uma criança especial e diferente.
Mas todos os planos de Vianne são interrompidos com a chegada de uma enigmática mulher. Tudo nela é simpatia, otimismo, alegria, boas energias, mas o que ela esconde é aterrador. Usa em magia em proveito próprio, não olhando a meios para atingir os seus fins. Uma inimiga implacável que tece um plano diabólico para destruir Vianne, e para o conseguir, conquista-a, como se fossem almas gémeas, irmãs de outra vida, ganhando-lhe a confiança, envolvendo-a numa teia sem que ela se aperceba dos riscos que está a correr. E Vianne, ainda que com muitos medos e receios, muito renitente em voltar a ser o que foi, em voltar a usar a sua magia, vai caindo nas armadilhas até ao momento em que percebe que antes de lutar com a sua inimiga para sobreviver, tem de vencer os seus próprios medos.
A história é diferente da que conhecemos em Chocolate. Há esta personagem maquiavélica, sem coração, personagem sombria, dá um suspense arrepiante ao enredo, e simultaneamente faz com que Vianne pareça uma tonta ingénua, a quem dá vontade de dar duas estaladas para ver se ela acorda para a vida, tira a cabeça da areia e assume quem é de verdade. Pois a sua fragilidade vem do facto de não assumir o que é verdadeiramente: uma feiticeira. Das boas. Do bem.
No decorrer da história vemos a evolução de Anouk, do seu próprio poder, de como, adolescente que é, se afasta da mãe e se torna facilmente manipulável. Vemos o desfile de uma série de personagens que vamos conhecendo ao longo das páginas: os seus medos, as suas dores, os seus fantasmas, as suas inseguranças. Tão reais que podia ser qualquer um de nós, qualquer pessoa que conhecemos.
O desfecho é um cliché: a vitória do amor sobre todo o mal, por mais forte que ele possa ser. Mas ainda que seja cliché, não deixa de estar perfeitamente enquadrado e ser o desfecho perfeito, que nos enche de ternura e esperança.
Agora o que eu gostava mesmo mesmo mesmo era de poder ir a uma chocolataria como a de Vianne Rocher. As delícias que imagino enquanto leio, quase que lhes sinto o aroma e o toque aveludado e doce.
nem sabia que havia uma continuação...
ResponderEliminarOBRIGADA
E há um terceiro, que ainda não li. Aroma das especiarias. Um regresso à vila onde aconteceu a história de Chocolate.
ResponderEliminarAi caramba... estou mais desatualizada do que pensava...!
ResponderEliminarDeixa lá, que também me acontece. Descobri por um acaso que Joanne Harris tinha mais livros com as personagens de Chocolate.
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