O Jogo de Ripper

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Adoro Isabel Allende. Li praticamente tudo o que é livro da autora, conheço a escrita dela há anos e anos e não perco um novo livro. 


Ao longo dos anos tenho notado como os últimos livros se distanciam um pouco dos primeiros, mas Allende tem um estilo tão próprio e envolvente, que escreva o que escrever, está ali o cunho da autora, aquilo que a identifica e nos faz reconhecer imediatamente a sua escrita, o seu estilo.


Este livro foi um desafio lançado a Allende e ao seu marido: escrever um policial a quatro mãos. Desafio aceite, mas em pouco tempo o marido desistiu do projeto e Allende continuou sozinha. 


Dizer que O Jogo de Ripper é um policial puro é reduzir insensatamente o livro. Quem o for ler a pensar que vai encontrar um policial típico, vai desiludir-se. Mas, ainda assim, tem os ingredientes chave de um bom policial: mistério, suspense, thriller psicológico, enredo bem desenvolvido, com revelações num crescendo gradativo até atingir um clímax, bem ao estilo de tragédia grega, onde somos surpreendidos com o desfecho. E depois da tragédia, de toda a emoção que nós também sentimos, o regresso à vida, com as sequelas e feridas que a tragédia deixou.


O Jogo de Ripper centra-se na personagem Amanda, uma adolescente peculiar e perspicaz, que coordena um grupo de adolescentes num jogo de mistérios online, onde cada um, com as suas particularidades, desempenha o seu papel com devoção. Conhecemos intimamente o núcleo de Amanda: a mãe, terapeuta holística, o avô, o seu grande companheiro, o pai, um detetive de homicídios, Ryan Miller, um ex seal que carrega no corpo e na alma as cicatrizes da guerra, tal como o seu fiel companheiro de quatro patas, Pedro Alarcón, um ex guerrilheiro uruguaio, e mais uma série de personagens, cujas histórias de vida vamos conhecendo, na medida certa, no tempo certo, para que todo o universo de Amanda se torne íntimo para o leitor. Portanto numa primeira parte do enredo temos histórias dentro de histórias, episódios do passado e do presente, onde conhecemos cada personagem, com a profundidade com que a autora quer que as conheçamos. Num plano ainda secundário há O Jogo de Ripper, hobbie da tenaz Amanda e do seu peculiar grupo de amigos virtuais, onde investigam crimes, numa primeira fase crimes fictícios, depois começam a investigar crimes reais. 


Num misto de investigação criminal e profiler, o grupo de Amanda investiga uma série de homicídios que ocorrem, aparentemente aleatórios. É o grupo de adolescentes que vai relacionando factos, investigando por conta própria, traçando o perfil do que consideram um serial killer, relacionando assim os homicídios que pareciam aleatórios. O próprio pai de Amanda chega a um ponto em que confia nos instintos da filha e nas suspeitas e descobertas que o grupo de adolescentes vai fazendo. E a partir do momento em que se torna pessoal para Amanda e para o seu núcleo familiar e íntimo, o enredo ganha nova dinâmica, num ritmo mais acelerado, em verdadeira contagem decrescente para salvar uma vida. A narrativa torna-se mais ativa, menos descritiva, e nós, leitores, porque conhecemos tão bem os envolvidos, sentimos a mesma angústia, o mesmo acelerar do coração, numa urgência cada vez mais sufocante para encontrar o responsável pelos crimes e poder salvar a vida de alguém tão importante e querido. 


É esta a magia de Isabel Allende. Dá-nos a conhecer as personagens, a sua história, o seu passado, os seus defeitos e virtudes, as suas cicatrizes de vida, os seus medos e anseios, os seus desejos e paixões. Ficamos tão íntimos das personagens que sofremos quando elas sofrem, sorrimos quando algo de bom lhes acontece, e sentimos o coração a bater ao compasso do desenrolar do enredo. Porque Allende nos envolve nesse universo, faz-nos sentir parte da história, da vida daquelas personagens que conhecemos tão intimamente, porque são tão humanas como nós que até podiam ser nossas amigas, familiares, companheiras.


A escrita de Isabel Allende é de um realismo profundo. E profundamente humano. Centra-se muito no poder feminino, a mulher como força motriz da vida (mesmo nas maiores adversidades), na família como um clã ancestral. 


O Jogo de Ripper é um thriller como só Allende poderia escrever. 


 

Comentários

  1. Nunca li um livro desta escritora e já me disseram que ando a perder grandes histórias... parece-me que sim!

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  2. Eu sou suspeita para falar, até porque adoro a autora há imenso tempo e está na minha restrita lista de favoritos como A escritora preferida, por isso é difícil manter-me imparcial.
    Allende, nas suas primeiras obras, é muito autobiográfica. O contexto histórico social é a guerra civil no Chile, os horrores que se viveram, as consequências, as pessoas que tiveram de fugir do país, clandestinas, e não esqueçamos que ela foi uma dessas pessoas, as suas histórias são muito crónicas familiares nesse contexto. Ao longo dos anos ele foi mudando um pouco o registo, e percebemos que a escritora escreve muito por influência da sua própria vida. Agora com netos, as últimas obras têm a presença da personagem jovem, adolescente, e toda a teia problemática que os pode envolver, havendo, sempre, uma família que funciona com o tal clã ancestral, onde até os espíritos dos antepassados aparecem para proteger os seus.
    Allende também se centra muito em personagens que socialmente são os desfavorecidos, os diferentes, no fundo os que mais sofrem na luta pela vida e muitas vezes pela sua própria sobrevivência. A carga humana das suas personagens é enorme. Como escrevi no post, é muito fácil nós, leitores, sentirmo-nos próximos e íntimos das suas personagens, porque nos sentimos envolvidos pelas suas histórias de vida.

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  3. É mais um que quero ler, não sei como irei ler os livros todos que quero, mas lá chegarei.

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  4. Adorei o livro "Paula" onde ela narra a doença e morte da filha. Um hino de amor à filha, duma mãe coragem. 

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  5. Como te percebo... A minha lista também é muito generosa, e temo que o tempo disponível não tenha a mesma generosidade. 

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  6. Esse livro é dos mais emocionantes que li, totalmente autobiográfico e tão profundamente sentido e sofrido. Se já gostava da autora, depois de ler Paula, fiquei rendida. 

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