Desabafo

Hoje andei, novamente, em serviço externo com um colega. A meio da tarde deparo-me com uma situação que me deixou revoltada, zangada, com vontade de chamar polícia, bombeiros, o Papa se fosse preciso, mas na impotência em que estava de poder fazer alguma coisa, fiquei completamente desfeita, com um nó na garganta e os olhos a lacrimejar. 


Num estaleiro de máquinas agrícolas deparei-me com uma casota de pedra. Presa com cadeado uma cadela, à volta dela os filhotes, esses soltos. A cadela estava ao sol, com um pote de água mais esverdeada que um sapo, uma gamela com meia dúzia de grãos de ração seca, ali, presa, debaixo de um calor intenso, em cima de pó, encostada a um muro, e mesmo à beira do sítio onde passam viaturas, camiões, máquinas agrícolas. Bateu a revolta quando vi aquilo. Mas doeu tão fundo ver aquela cadela, numa doçura extrema, de olhar triste, a saltar para o muro a tentar alcançar-me, como se me pedisse ajuda, para ela e para os filhotes. 


Sim, podia ter pegado no telemóvel, ligado para a GNR. Procurado na net uma associação local, pedir ajuda, denunciar a situação. Mas estava em trabalho, com viatura da empresa, com um colega a quem isto nada afeta e não gozou comigo porque me viu verdadeiramente transtornada. E depois a verdade é que a cadela estava em propriedade privada. Tem dono. Alegadamente comida e água. Chamar a polícia para nada fazer? Estar sujeita a reprimenda porque estava em funções e em horário de trabalho? As associações estão a abarrotar, bem sei, e já senti na pele o que é pedir ajuda para um animal em risco e negarem-se com o argumento que estão lotados e não podem. É demasiada impotência que me revolta as entranhas, e choro agora de raiva e de mágoa por ver estas coisas e não conseguir fazer nada. 



 


 


 

Comentários

  1. É por isso que me recuso a ir de férias e deixar o meu bicho com alguém. Ainda que esse alguém trate bem dele. Prefiro que esteja comigo, mesmo que isso represente levar mais tralha no carro, mesmo que isso represente encher a casa de férias de pelo (que tenho que apanhar todos os dias). Só aceito ir de férias se me deixarem levar o meu gato. Quantas vezes já desisti de ir para algum lado só porque não permitem animais. Eu sei que pode parecer um exagero para outras pessoas, mas chegar da praia e ver o bicho, que está estiraçado no chão à frente do ar condicionado, levantar-se muito depressa para vir pedir festas e dar turrinhas nas minhas pernas, vale tudo.

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  2. Eu tenho quatro. Antes do mais novo aparecer (mais um resgate da rua) eram três. Levá-los comigo de férias é uma logística complicada. Já ficaram em hotel, pelno de confiança, e sei que foram muito bem tratados. Mas é um stress para os gatos saírem do seu espaço. Já foi a sogra tratar deles a casa. Não quero mais. Além de me ter partido coisas, os gatos estavam em stress e eu fiquei a dever um favor a uma pessoa com quem não quero ter esse tipo de dívidas de gratidão. Nas últimas mini férias experimentei os serviços de pet sitting de uma rapariga, amiga de uma amiga. Enfermeira veterinária, voluntária em associações animais, boas referências. O desemprego fê-la criar o seu próprio negócio e fiquei totalmente satisfeita com o serviço. Em breve vou de férias 10 dias e já tenho tudo tratado com ela. Claro que sinto imensas saudades, mas todos os dias ela me dá feedback de como eles estão.
    É dinheiro que gasto. É. Podia estar mais dias foras, não estou. Podia ir para sítios mais caros, não vou. E não é sacrifício. São escolhas que faço tendo-os como membros da família. Ideal seria levá-los. Mas prefiro que se mantenham no seu espaço e vá alguém de confiança tratar deles, do que façam uma viagem longa, com calor, para espaços desconhecidos, que os colocariam em stress. São opções. Mas são opções  de quem se preocupa com eles, com o seu bem estar, que os respeitam. Não são só animais. São os meus amigos mais especiais, os meus companheiros, fazem parte da família. 

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  3. Como te compreendo...
    Vou para fora por apenas cinco dias e já estou a morrer de saudades do meu bichinho.
    Sei que fica bem entregue pois caso contrário nem sequer ia a lado nenhum. 
    É  parte da minha família e é impensável não tratá  - lo como tal.
    Pergunto - me sempre se essas "pessoas" tratam assim os animais pensaram bem ANTES de os ter. Parece - me que não.   :(

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  4. Muito revoltante. Mexe mesmo comigo.Ninguém é obrigado a gostar de animais, mas se não gostam, não querem ter trabalho a zelar pelo sem bem estar, então simplesmente que não os tenham!

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  5. Para essas pessoas é só um animal, uma coisa, que pode ser enfiada a um canto, e se chatear muito larga-se em qualquer lado. 
    Quem pensa e age assim, não pode ser boa pessoa.

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  6. Esta situação, e a de abandonos, é dos flagelos que mais me deixa enraivecida! Curiosamente, ainda ontem escrevi um desabafo sobre uma situação idêntica a esta no meu facebook... Há coisas que não consigo alcançar... Como é possível fazer uma coisa destas a um ser vivo?
    Aqui às uns anos chegava a casa do trabalho e vi um cão fechado numa varanda de um prédio minúscula, sem água ou comida e completamente prostrado no chão. Via-se perfeitamente que o animal tinha estado o dia inteiro à esturra do sol (era agosto) e estava em grave estado de desidratação. Tive que chamar a polícia! O animal em questão foi retirado imediatamente à "família" e entregue a uma associação local, que muito me agradeceu a denúncia. Passei a ajudar a associação no que pude desde então, e felizmente o animal encontrou uma família 5 estrelas pouco depois :D
    Às vezes são estes pequenos gestos que fazem a grande diferença na "big picture", por isso continue a não deixar a indiferença levar a melhor!

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  7. Aqui em casa a logística tem funcionado, sempre com prejuízo para um. Quando fomos a Londres em Abril, o Tomás ficou em casa com elas. Agora vamos de férias (vamos experimentar turismo rural), e como o Tomás está em formação para trabalhar, mais uma vez fica encarregue das criaturinhas. Quando for possível, havemos de ir os dois e fica o Victor. 
    Não confio em ninguém para ficar com as minhas bonecas; mesmo com o Tomás, a coisa não é pacífica. Elas passam o dia todo coladas a mim, e eu já as conheço como ninguém... e acabam SEMPRE por sentir falta. E, para me tranquilizar em relação aos 5 dias que aí vêm (NÃO...), quando estavamos a regressar de Londres, fomos bombardeados com telefonemas e sms's do meu filho. Como estávamos a bordo, não recebemos nada. Mal aterrámos, as notificações não se fizeram esperar. A Piccolina tinha desaparecido.
    Olha, nem te conto... era o Victor a manter o sangue frio, que para cabeça perdida já bastava a minha, a ligar para o filho. Eu desandei a alta velocidade (a porra do aeroporto Humberto Delgado é grande como o raio) até que não aguentei mais, e sentei-me no chão. Agarrei no vanity, virei o conteúdo para o chão - neste interím estava o Victor sem saber o que fazer, e se eu estava tão descontrolada como parecia - à procura dos calmantes, mas não via nada, e tremia tanto que não conseguia quase mexer nas coisas. Lá os encontrei, tomei dois. Eu fiquei sem rede no telemóvel, o do gajo não é android, para chamar um huber foi mais meia hora, à conta de dar bateria ao bicho ( a diferença entre Heathrow e Lisboa é, por exemplo, que lá todas as tomadas funcionam...e  cá não funcionava nenhuma. Três minutos depois de chamarmos, já tínhamos o motorista à porta, e quando estávamos a entrar na ponte o Tomás ligou a dizer que ela tinha aparecido. 
    Digamos que a sensação de relax com que nós vínhamos, desapareceu em segundos.
    Neste tipo de situações, dá para perceber que elas também são filhas, e a dor é imensa.
    Quanto ao teu caso, COMO te compreendo. 
    Este domingo encontrei um siamês puro que nem um ano teria ainda completado, no estacionamento ao pé da minha casa. Chamei-o e ele veio ter comigo. Estava tão magro que as patas dianteiras tremiam para aguentar o peso do corpo... peguei-lhe ao colo para o trazer para casa e dar-lhe de comer, mas ele resistiu e foi-se embora. Fiquei de coração apertadinho... 
    Ó pá,é horrível, e ainda mais horrível quando são os humanos que não entendem que as criaturas têm DE FACTO sentimentos, emoções.
    É tão triste...
    Desculpa o testamento... b'jinhos!

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  8. Fico tão triste, como é possível terem os bichinhos assim. Tenho 2 rafeirotes lindos, um deles adotei já com 6 anos, quando saio de ferias tenho imensas saudades e volto de gosto 😍. Bjs

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  9. É revoltante. Não podes fazer mesmo nada ? Coitada da cadela, quase de certeza que vai ter gravidezes atrás de gravidezes e sempre mal alimentada.

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