Rascunho?!
Apesar do cansaço de um dia frio e chuvoso, trabalhoso e turbulento, culminando com uma nada fantástica trovoada, sentei-me de portátil à frente, folha de word em branco, com o mote a negrito: Os mais pequenos baús são os mais pesados.
Houve uma ideia que queria explorar. Escrevi, apaguei, reescrevi, apaguei, mudei a direção do tema, escrevi, apaguei... desesperei. O cansaço contrasta com a leveza da pena. Escrever não é magia que flui na ponta dos dedos. Às vezes flui mais, outras menos, outras nada. Umas vezes desiste-se, outras insiste-se. Hoje insisti.
Não gosto do óbvio e sinto que fui pelo óbvio. Leio o meu texto e não me sinto satisfeita. Parece um conjunto de lugares comuns, não sei, estou tentada a, uma vez mais esta noite, carregar no delete e eclipsar o texto no vazio do disco rígido.
Ainda assim há parte de mim ali. Que não gostaria de apagar, sem dó nem piedade.
Aqui o deixo, tal como está, provavelmente para olhar para ele amanhã e apagar e recomeçar. Ou não. Ou fazer-lhe ajustes. Alterações. Não sei. O cansaço permite-me a desculpa deste desconforto em processo de escrita.
Eis o rascunho que sobreviveu nas últimas horas.
Os homens não se medem aos palmos. Nem os baús pelo seu tamanho. Nem sempre os maiores são os que mais pesam. Tantas vezes os maiores estão cheios de eco, e os mais pequenos pesam, como se guardassem todos os segredos do mundo.
Os mais pequenos baús são os mais pesados. Viro e reviro a frase, procurando-lhe um contexto.
E se eu fosse um baú? O que guardaria dentro? Recordo-me da lenda de Pandora e da sua caixa. Todos os males espalhados pelo mundo, ficou a esperança. Será esse o destino dos homens? Moldados pelas mãos do tempo, na roda da vida, condenados a angústias e tristezas, a perdas e dores, mas com a esperança como farol em dias de tosco nevoeiro. Crianças que sonham e fazem o mundo pular, entre risos e gargalhadas. A esperança que leva pela mão a fé num amanhã melhor. Num futuro que está por desvendar, ainda que esteja escrito. A esperança que nos dá a ilusão de escolher o caminho, decidir o rumo, desviar as pedras, subir os degraus, trepar árvores e escalar montanhas, acreditar no impossível e ter força para isso.
Talvez todos sejamos Pandora. #Jesuispandora! Na moderna linguagem das redes sociais. Todos carregamos dentro de nós um pequeno baú de memórias, de cicatrizes, feridas de vida, de mágoas e alegrias, de amores e desamores, de risos e lágrimas, de conquistas e derrotas.
E naqueles dias em que o nosso baú atinge o limite, ameaça rebentar as dobradiças e estourar a fechadura, há que o abrir e libertar os males que nos pesam, nos carregam e nos atrasam na nossa caminhada. E há que segurar a esperança, que é a cola que une os cacos que se quebraram pelo caminho.
Gosto de lendas. Nos primórdios dos tempos era com lendas que os homens preenchiam os ecos da sua existência. Gosto de as guardar no meu baú de memórias e estórias…
Podes ser um pequeno baú, mas és sem dúvida - pelo que te vou lendo - uma grande e forte mulher!
ResponderEliminarCacos guardados todos temos, mas o importante é continuar a andar e olhar em frente, sem pesares, sem arrependimentos. É cliché mas a verdade é que somos fruto das nossas vivências, sejam elas boas ou más, e sem elas seríamos outras pessoas, provavelmente muito diferentes.... Provavelmente muito mais desinteressantes.
Muito bom! Obrigada por partilhares
ResponderEliminarBelo rascunho.
ResponderEliminarEu acho que os nossos baús podem parecer pequenos, mas às vezes parecem não ter fundo, tal é a nossa capacidade de armazenagem e superação.
Oh Mula, obrigada pelas simpáticas palavras.
ResponderEliminarJá foram tantos os rascunhos apagados, esquecidos, despojados. Demasiado perfeccionista e exigente comigo própria para achar que o que vou escrevendo tem conteúdo ou qualidade para ver a luz do dia.
E mesmo depois de umas horas de descanso, leio este texto e não me sinto satisfeita.
Obrigada! Eu continuo a lê-lo e a não me sentir satisfeita.
ResponderEliminarAo terceiro elogio e eu já estou vermelha que nem um tomate.
ResponderEliminarA sério? Leio isto e não me sinto satisfeita, não sei. Talvez tenha idealizado muito uma linha da qual me desviei totalmente. Oh porra para mim!
Sei que vou contrariar as opiniões que tens tido, e não é a minha ideia pôr-te abaixo.
ResponderEliminarAcho que tens muito por onde desenvolver e bastantes analogias que podes fazer.
ResponderEliminarGostei muito do título e do tema em si.
O texto está bom, eu gosto, mas se não está como queres podes sempre rever.
Eu muitas vezes começo a escrever com um rumo e acabo no oposto.
Chateada ou magoada porquê? Ainda para mais quando vais ao encontro do que eu própria estou a sentir com este texto.
ResponderEliminarSempre é melhor ter um texto para reler, trabalhar, do que ter a folha em branco.
ResponderEliminarVamos ver se hoje o dia me inspira mais para trabalhar esta base.
Obrigada!
Esse tipo de insatisfação é também importante, porque é o que permite evoluir e desejar mais e melhor mas... não sejas tão exigente contigo!
ResponderEliminarPois, essa parte do não ser tão exigente comigo é que pronto... e não é só na escrita.
ResponderEliminarPois acredito que não, até porque a escrita é só o teu reflexo!
ResponderEliminarE por isso é que acho que deves trabalhar mais isso em ti, dar-te um desconto... todos nós precisamos de descontos!
Eu não posso trabalhar muito nos textos que escrevo, às vezes nem os revejo porque se o fizer altero tudo e nunca os termino
ResponderEliminarDepois publica o resultado
E eu gosto tanto de descontos
ResponderEliminarDepende dos textos. Aqui no blog, uma revisão rápida, quando a faço, e sai. Agora outros não. E este, não sei porquê, está difícil de me saciar.
ResponderEliminarVamos ver se tenho tempo e cabeça para me debruçar sobre ele. Ou fazer novo.
Vês....;)
ResponderEliminarTem juízo então! ahahahahah
Volta a pegar nele e terás mais ideias .
ResponderEliminarNão tenho a menor dúvida que és uma grande mulher... mas por vezes os "baús" necessitam de apanhar ar, desabafar! =)
ResponderEliminarAproveitei a pausa a meio da manhã. Abri um documento word e deixei fluir. Novo texto.
ResponderEliminarDeixar sair o cheiro a naftalina, a humidade.
ResponderEliminarPois, aproveitei o sol a meio da manhã, a pausa para lanchar, abri novo documento word e deixei arejar. Novo texto na forja.
E não sou lá muito grande, não. Metro e meio de gente.
Metro e meio de gente, mas grande antes do mulher, e não grande depois do mulher ! =)
ResponderEliminarE ainda bem, a insatisfação leva-nos a querer sempre mais e melhor!
ResponderEliminarContinua!
Na escrita serei uma eterna insatisfeita.
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