O Jogo do Anjo: o meu primeiro desafio de leitura
Depois de ler A Sombra do Vento e ter ficado rendida à escrita de Zafón, eis que recebo um convite para participar num desafio de leitura. Ler em simultâneo com um grupo de ávidas leitoras e admiradoras de Zafón O Jogo do Anjo. Agradeço à Magda pelo convite, agradeço a todas as participantes a oportunidade de pertencer a tão excelente grupo de leitura. Comecei bem o desafio, que no fim-de-semana em que arrancou a leitura, eu devorei mais de 300 páginas. Depois o tempo disponível abrandou-me o ritmo, e o próprio livro começava a irritar-me: tanto mistério, andar ali às voltas, respostas nem uma, e já achava que aquilo era uma grande loucura, e não me admirava que chegasse ao fim e o protagonista acordasse de um pesadelo qualquer, de um devaneio, e eu ficava ali, com vontade de espancar o narrador. Não foi assim que aconteceu, mas confesso, fui a última a cumprir o desafio. Vale que é daqueles desafios em que não há vencedor nem vencidos, tão pouco pódio com medalhas para distribuir. Ainda assim, Pandora foi a última a cortar a meta.
Sobre este livro de Zafón...
Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.
Assim começa O Jogo do Anjo. Uma narrativa de primeira pessoa. O nosso narrador é o protagonista deste enredo denso, um jovem escritor, David Martin, que não me criou a mesma empatia que o protagonista de A Sombra do Vento, Daniel Sempere. O cenário continua a ser Barcelona, nas décadas de 20 e 30. Uma Barcelona escura, misteriosa, gótica: a cidade dos malditos, citando o narrador protagonista. Para quem já leu A Sombra do Vento vai reencontrar locais conhecidos, como o mágico Cemitério dos livros esquecidos e a livraria de Sempere. Cronologicamente, O Jogo do Anjo acontece antes da ação de A Sombra do Vento, já que o nosso conhecido Daniel Sempere aparece referido no final do Jogo do Anjo como tendo nascido e ficado orfão de mãe aos 4 anos. Portanto, é interessante revisitar locais e algumas personagens já cohecidas, mas num tempo anterior, como se assim pudessemos conhecer o seu passado.
Na linha de A Sombra do Vento, o autor mistura vários géneros: romance, mistério, suspense, crime. Nas palavras do próprio: é novamente uma história de livros, de quem os faz, de quem os lê e de quem vive com eles, através deles e até contra eles. É uma história de amor, amizade e, em alguns momentos, sobre o lado obscuro de cada um de nós.
Na leitura que fiz, do que me ficou, predomina o mistério e o suspense. A história de David Martin é trágica, como se ao nascer já estivesse condenado a uma vida de sofrimento, destino ao qual não consegue fugir por mais que tente. É um lutador. Abandonado pela mãe, filho de um pai violento e alcoólico, viu-se sozinho no mundo muito novo. O seu amor pelos livros foi a sua salvação. E provavelmente a sua maldição. Num relato alucinante, os mistérios sucedem-se, os crimes também. Mistério sobre mistério, becos sem saída, um suspense de cortar à faca. Chegamos a duvidar da sanidade do nosso protagonista narrador, principalmente quando há outras personagens com versões diferentes dos mesmos factos. Um amor trágico, amizades incondicionais, daquelas "até que a morte separe", o mistério e obscurantismo de algumas personagens, tudo parece conduzir David ou a um final trágico ou a um final de glória. Apostaria mais no trágico, porque o próprio encadeamento dos acontecimentos assim o faz prever. David Martin perde tudo o que ama, e perdeu-se a si próprio no dia em que aceitou a proposta do misterioso Andreas Corelli. Mais não posso dizer, e creio já ter dito muito...
Confesso que o final me deixou um doce amargo. Se houve mistérios que foram minimamente desvendados, outros ainda se adensaram mais. Como leitora que gosta de descobrir a lógica dos acontecimentos narrados, confesso que este livro me deixou à deriva em muitos aspetos. Não tivesse eu esperança de encontrar respostas nos próximos livros da saga, e estaria de facto desiludida com este desfecho. Assim, só estou completamente viciada na saga de Zafón e ansiosa por ler o próximo. Se este é o objetivo do autor, prender os seus leitores desta forma tão intensa, missão cumprida.
Para quem quiser confrontar as opiniões das restantes participantes deste desafio, deixo aqui a lista das meninas, a quem agradeço novamente pela oportunidade:
Magda; JP; M*; Me, myself and I; Just Smile; Sofia e a Nathy.
Espero não me ter esquecido de alguém, se sim, por favor digam-me, para eu completar a lista.
Já um vez disse que devias escrever mais vezes sobre os livros que lês. Fazes parecer fácil e consegues aguçar a curiosidade de quem lê. Adoro
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ResponderEliminarAssim deixas-me envergonhada.
Eu escrevo sobre os livros que leio, o meu ritmo de leitura é que está a anos luz de ser como o da Magda, por exemplo.
Obrigada pelas palavras.
Espero realmente encontrar respostas no último livro, porque houve ali umas pontas soltas que não desataram o nó do meu cérebro :P
ResponderEliminarPois, eu não esperei e agarrei-me ao último livro com voracidade. As minhas suspeitas confirmaram-se. Seria a explicação lógica que eu daria, mas... pode não agradar a todos.
ResponderEliminarShiuuuuuuuuu ainda não o tenho comigo :P
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ResponderEliminarEu tinha o PDF e olha, nem me armei em esquisita. A curiosidade foi mais forte.
Não consigo, sou esquisita mesmo :P
ResponderEliminarquando percebi que ainda não tinhas lido a sombra do vento fiquei com os cabelos em pé! não era possível ahahahahahaah agora lixei-me que foste mais rápida que eu nO Prisioneiro do Céu :D
ResponderEliminarTemos de ler em conjunto mais vezes. Sem pressas nem correrias porque o verdadeiro prémio está em ler um livro e não em acabar primeiro
ResponderEliminarNem encarei o desafio assim. Foi uma forma de brincar.
Agora O Prisioneiro do Céu devorei sôfrega porque: fiquei tão intrigada e inquieta com o final do Jogo do Anjo, que andava aqui ansiosa por saber se o terceiro livro traria esclarecimentos. E depois tirei um dia de férias no qual acabei por ficar sozinha em casa, ainda por cima com tempo de chuva. O universo conspirou a meu favor. Ah ah ah ah
o universo conspirou foi contra mim ahahahahahaahahahah
ResponderEliminarE trazia na lapela um alfinete em forma de anjo?
ResponderEliminaria jurar que sim...
ResponderEliminarolha, tiraste-lhe uma foto, foi?
ResponderEliminarApanhei-o distraído a ler a minha crónica em branco.
ResponderEliminarlogo vi que tinha de ser numa dessas ocasiões... mas a máquina era especial não? é que normalmente não fica nas fotos
ResponderEliminarApanhei o reflexo numa poça de água.
ResponderEliminarsó podia ser uma coisa assim
ResponderEliminarágua benta, claro!
ResponderEliminarclaro... claro...
ResponderEliminarAgora fiquei com vontade! :)
ResponderEliminar(Só para informar que eu não estou a ler o livro ... apesar de meteres lá o meu nome)
Tirei os nomes das participantes de um mail da Magda. Desculpa.
ResponderEliminarMas vá, faz-te ao livro que ele é empolgante.
Eu já uma vez tinha comentado que alguém meteu lá o meu e-mail a mais :P que eu nem sequer tinha o livro eheheh mas ninguém o tirou :D
ResponderEliminarMas confesso que já me arrependi, tenho lido criticas mesmo boas :D