Nas palavras dos outros vejo-me ao espelho

Hoje bati com os olhos numa crónica. Na hora de almoço, enquanto aguardava pelo plim do microondas, passeava os olhos pelo mural do facebook e algo me chamou a atenção. Abro o link. Leio de um trago o texto e sinto aquele arrepio de quem recorda um pesadelo.


Vais ser sempre uma infeliz.


Ouvi tanto isto. Ouvi tantas das coisas descritas neste texto. Vivi outras tantas. É duro. Foda-se, é mesmo duro. E não tem cura. É um vazio e uma mágoa que nos acompanha até ao fim dos dias. Conforta-me a coragem de ter virado costas, de largar, de procurar viver em vez de sobreviver. Conforta-me saber que há outras pessoas com histórias de vida familiar semelhantes. Que ouviram as mesmas coisas, que sentiram as mesmas coisas, que sofreram de igual forma. Conforta-me saber que a culpa não é minha, que o monstro não sou eu, que contra quem mais me devia apoiar e gostar de mim, eu procuro ser feliz como sou. 


 

Comentários

  1. Céus... um discurso cortante. Tive uma infância complicada também, nada que se assemelhe a isto, até porque tive a sorte de ele trabalhar no estrangeiro por muito tempo... quando ele voltou não me restou se não sair de casa, tinha 20 anos. Não podia sair, e chegar depois da meia noite, dizia que me mudaria a fechadura e eu não voltaria entrar... ameaçou-me várias vezes enviar-me para a aldeia para me afastar das minhas amigas e do meu namorado... fartei-me e arranjei casa de um dia para o outro... também só lhe avisei "vou sair de casa, só cá fico mais uma semana..." também não comentou, demorou algum tempo a aceitar. E como foi bom ter a minha casa, sentir aquela casa como minha, e sentir que poderia finalmente começar a viver, até porque chegar a casa depois das 00h não era só para as putas como ele dizia... Infelizmente a família não se pode escolher, felizmente a minha mãe sempre foi boa, boa pessoa, boa mãe... pena que nunca se tivesse conseguido impor, se calhar, melhor assim... não sei. O que eu sei é que foi preciso ele morrer para eu e ela conseguirmos respirar, e sermos felizes.

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  2. Sim... há gente que se perde na vida por muito menos...
    E... essa do "tens tudo" também era algo que ouvia muito... eu tinha tudo o que era material é verdade... pouca gente compreendia é que isso não é tudo, e está muito longe de ser tudo... Por acaso a restante família sempre foi boa comigo... os meus avós adoravam-me... Ainda que a minha avó paterna não gostasse da minha mãe... gostava de mim.


    Felizmente quando crescemos podemos escolher quem queremos ter a nosso lado... e gosto de acreditar que nesta vida, tudo se paga... um dia... tudo se pagará...

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  3. Temos ambas uma caixa de pandora: e não deixámos de ter esperança para sermos felizes. Acredito que é a minha maior prova de coragem e força. 
    Que a vida te sorria. Obrigada pela partilha. 

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  4. E eu só te desejo o bem! Beijinho Pandorinha!

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