Crise existencial
Há coisas que acontecem e nos derrubam. E se coisas há que nos derrubam mas basta sacudir o pó, levantar e seguir em frente, há outras que nos derrubam e ainda carregam um pouco mais, para uma pessoa se afundar.
Sinto-me atirada a um charco. Sinto-me descartável, sinto-me a mais, sinto que não faço falta. Que o empenho, o tempo despendido, as energias concentradas para ultrapassar dificuldades e atingir objetivos, que os sacrifícios que fiz, nada valem na hora de ver algum reconhecimento ou compensação. Em vez disso sou atirada para um plano em que sou mera suplente: se houver lugar há, se não houver, adeus. Mas mesmo que esse lugar até exista, é tão mau, que vejo-me aqui a desejar com toda a minha força que prefiro a humilhação de pegar nas trouxas e vir embora, ser descartada, apesar de ser das melhores e dominar a coreografia, do que ter de enfrentar o palco (sim, é sobre o espetáculo de dança deste Sábado) com aquela pessoa.
E o irónico é que ninguém quer fazer par com essa pessoa, o seu suposto par tem faltado, evaporou-se do mapa e nem sinais de vida dá a poucos dias da atuação (ficou tão satisfeita com o par que lhe calhou na rifa, que eclipsou-se) mas a cabra sou eu porque me revoltei. Oficialmente fui eu que fiquei sem par. A dias do espetáculo o meu par diz que não tem disponibilidade para ensaios e no próprio dia das atuações nem sequer está por cá. A segunda ironia desta história: nem era o meu par original. Troquei. Para que o meu par original ajudasse uma colega com dificuldades na coreografia, e eu pudesse ajudar este, já que ele tinha faltado muito e não estava confortável.
Olham-me agora como se eu tivesse a mania da vedeta. Se eu quisesse ser a vedeta, jamais tinha trocado de par. Jamais olharia para os colegas com dificuldades e arranjaria formas para os ajudar, jamais andaria a tirar dúvidas de passos a colegas. E no fim disto tudo, a descartada sou eu. Estou a mais, não faço falta, ou só faço falta para substituir quem não aparece.
Esta merda podia ser atirada para trás das costas e siga. O que me custa mesmo? É que situações destas são recorrentes na minha vida. Este episódio que envolve a atuação no espetáculo de fim de ano da escola de dança mais parece uma metáfora da minha vida: a dedicação, a ajuda aos outros, o empenho, a luta para vencer dificuldades, o mérito de atingir objetivos, o chegar ao topo e ser das melhores... nada vale na hora H.
Sim, ando na merda por causa de uma porcaria de uma injustiça na dança. Mas ando essencialmente na merda porque na minha vida é sempre disto que me acontece: o meu destino é o charco da lama, independentemente do valor, do esforço, dos sacrifícios.
É onde te sentes, é onde te "largam".
ResponderEliminarMas NÃO, não que não é o teu lugar!
Respira, conta até 10, dança pelo prazer que te traz e depois, quiçá no momento certo, entregues as chapadas de luva branca merecidas! ;)
Beijinho,