Há dias assim
Há dias em que algo desperta em mim. Uma angústia. Uma melancolia. Uma tristeza.
Esses são os dias em que me sinto o prisioneiro libertado da caverna, aquele que consegue vir à superfície e ver a realidade tal como ela é. E dói.
Tenho a amarga sensação que o corre corre do dia a dia me deixa numa dormência torpe. Enfio a cabeça na areia, vislumbro as sombras à minha volta, mas a cabeça anda a mil, o contra relógio é constante, as mil e uma coisas que me deixam entontecida, sem tempo ou disponibilidade para pensamentos e reflexões de xaxa. E há aquele dia em que tudo pára. O tempo fica como que suspenso numa linha acima da minha cabeça, qual lâmina de gume afiado. Olho à minha volta e as sombras dissipam-se. A rotina repetida em correria desenfreada estilhaça-se. Fico eu e o eco da minha solidão imposta.
Há dias em que me sinto por demais cansada desta vida de mulher a dias e guarda noturno. Eu trabalho de dia, acumulo explicações, tarefas domésticas. Ele trabalha de noite. Dorme de dia. Vai ajudando. Tem dias que podia fazer mais. Tem dias que faz mais do que lhe pedi. Mas viver com alguém não devia ser cruzarmo-nos ao pequeno-almoço ou ao jantar. Não devia ser eu dormir sozinha, não ter com quem conversar, com quem enroscar no sofá e disputar o comando da tv. Viver com alguém não devia ser só correr para ter o jantar pronto a horas, tratar-lhe da roupa, esperar que o fim de semana traga o tempo que a semana não tem, e que normalmente é ocupado com outras coisas, outras pessoas. Viver com alguém não deveria ser passar em casa depois de sair do trabalho e antes de ir para explicações e os minutos que lhe ponho a vista em cima está o telefone com a mãe.
Falo com os gatos, vejo tv com os gatos, durmo com os gatos. E não fosse ter o jantar para fazer ou tratar-lhe da roupa, diria que moro sozinha com os gatos.
Tem dias que isto dói. Muito.
Como dizes, há dias assim. Mas amanhã é outro dia. E também não há-de ser sempre assim. (Tenho uma amiga que o marido também era segurança nocturno, agora continua a trabalhar como segurança, mas nas carrinhas de valores)
ResponderEliminarGosto muito da sua maneira de escrever e se expressar!
ResponderEliminarEle não é segurança noturno, mas trabalha no turno da noite. Sempre. Há quase 4 anos. E uma pessoa acha que se habitua, mas vai passando por estas fases. Não é fácil gerir, há alturas que não é fácil aguentar. Estou numa dessas fases. Há-de passar e hei-de voltar a conformar-me que tem de ser e nada há a fazer.
ResponderEliminar:(
ResponderEliminarSabes que vivo mais ou menos assim... por isso compreendo-te.
Força, o sentimento está aí e a vida (mesmo que devagarinho) vai ao sítio - tu tens tido provas disso!
Beijinho grande,